Educação

Estudo do ISMT: Três Reservas de Biosfera ibéricas em risco de perda de estatuto

Notícias de Coimbra com Lusa | 3 horas atrás em 30-03-2026

Um estudo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT) concluiu que o estatuto de Reserva de Biosfera da Meseta Ibérica, Gerês/Xurés e Tejo/Tajo está em risco, porque as empresas de alojamento e restauração locais não cumprem medidas de sustentabilidade obrigatórias.

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A pesquisa, realizada por investigadores do ISMT, em Coimbra, demonstrou que as empresas de alojamento e de restauração localizadas naquelas Reservas da Biosfera transfronteiriças “não estão a cumprir as medidas de sustentabilidade obrigatórias que a UNESCO exige para manter o estatuto nas zonas classificadas”.

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A classificação “não depende apenas da natureza preservada”, mas sim “do que fazem diariamente hotéis e restaurantes”, explicou o ISMT.

Os resultados da investigação apontam que as empresas localizadas nas três reservas ibéricas aplicam sobretudo medidas simples e de baixo custo, como a separação de resíduos e a poupança de água.

“Só muito raramente, porém, avançam com medidas estruturais, como a adoção de energias renováveis, a reorganização de processos ou a implementação de eficiência energética profunda”.

A coordenadora do estudo, Maria Cunha, alertou que, “se as atividades económicas aplicam apenas medidas básicas, o território pode deixar de cumprir a função para que foi classificado”.

“Numa Reserva da Biosfera, o estatuto depende do cumprimento permanente de critérios internacionais: a classificação não depende apenas do estado da natureza, depende do funcionamento da economia local”, explicou a investigadora e docente do ISMT.

O estudo abrangeu 30 microempresas de alojamento e restauração, localizadas nas três Reservas da Biosfera transfronteiriças da Meseta Ibérica, do Gerês/Xurés e do Tejo/Tajo, sendo 14 hotéis e 16 restaurantes, maioritariamente com equipas entre quatro e seis trabalhadores.

A análise incidiu sobre quatro dimensões do funcionamento diário: eficiência energética, uso da água, gestão de resíduos e compras sustentáveis.

Para Maria Cunha, o problema não resulta de resistência das empresas às regras ambientais.

“O que encontramos é um ‘value-action gap’ [um hiato entre valores e ações]: empresários e trabalhadores valorizam a sustentabilidade e conhecem as boas práticas, mas não conseguem aplicá-las de forma consistente no funcionamento diário”, afirmou.

“Muitas microempresas não têm estrutura administrativa para aceder a apoios, nem acompanhamento técnico para alterar processos”, explicou, apontando que “existe intenção, mas falta capacidade operacional”.

A discrepância torna-se visível também na perceção dos clientes, já que os visitantes reconhecem preocupação ambiental, mas referiram observar estas práticas apenas ocasionalmente durante a estadia.

Na conclusão, o estudo aponta que a correção da situação não depende de novas regras, mas da aplicação efetiva das existentes, incluindo acompanhamento técnico às empresas, incentivos financeiros, fiscalização regular e comunicação mais clara junto dos visitantes para reduzir o ‘value-action gap’.

As Reservas da Biosfera integram o programa ‘Man and the Biosphere’ (MaB) da UNESCO e são avaliadas através de revisões periódicas internacionais, realizadas de dez em dez anos.

A verificação incide principalmente sobre o estado ecológico do território (‘habitats’, água e paisagem), “enquanto o funcionamento quotidiano das atividades económicas é acompanhado de forma muito menos sistemática pelas entidades nacionais e regionais”, acrescentou o ISMT.

A classificação “funciona também como selo internacional de confiança ambiental e influencia diretamente a atratividade turística”, sendo que, “quando a experiência do visitante não corresponde à promessa de sustentabilidade, o valor associado ao destino diminui”.

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