Viveu “um inferno” na adolescência por não compreender a sua identidade, num percurso de sofrimento que Nuria acredita que poderia ter sido diferente se na altura já houvesse a lei de 2018 de autodeterminação da identidade de género.
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Nascida e criada num bairro da periferia de Lisboa, Núria Rosa recordou à Lusa uma infância feita de silêncios e confusão. “Eu não sabia o que era. Achava que era um homossexual afeminado”, contou, lembrando a ausência de referências e de informação sobre identidade de género ou sobre pessoas trans.
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O sofrimento começou cedo. Aos 6 ou 7 anos, percebeu que se identificava com o universo feminino da irmã, mas rapidamente aprendeu que esse sentimento não era aceite. Na escola, a partir do quinto ano, a rejeição transformou-se em violência física e psicológica. “Batiam-me, faziam-me esperas, chamavam-me nomes”, relatou.
Sem apoio, adotou uma estratégia de sobrevivência: tornar-se agressiva para evitar ser alvo. “Comecei a ser quem não era para conseguir existir”, disse. Ainda assim, o percurso escolar ficou marcado pelo abandono precoce.
Aos 16 anos, após a primeira relação com um rapaz, tentou suicidar-se. “Não me sentia confortável com aquilo que achava que era”, explicou. Seguiu-se um internamento psiquiátrico, num período em que, sublinhou, continuava sem compreender a própria identidade.
Só aos 17 anos, ao entrar numa discoteca em Lisboa e ver outras mulheres trans, encontrou um espelho. “Percebi: é isto que eu sou.” No dia seguinte, assumiu-se. Pouco depois, foi expulsa de casa pela mãe.
“Começou a minha vida na marginalidade”, resumiu. Sem alternativas, entrou na prostituição e viveu anos sem estabilidade, recorrendo a hormonas sem acompanhamento médico, depois de uma experiência negativa no hospital. “Disseram-me coisas agressivas. Nunca mais voltei.”
Durante anos, viveu entre o feminino que expressava e o nome masculino que constava nos documentos.
A mudança legal de nome, em 2017, antes da entrada em vigor da lei n.º 38/2018, foi um ponto de viragem. “Ganhei outro ânimo. É o mínimo: podermos ser quem somos”, afirmou.
Ainda assim, acredita que, se a lei já existisse na sua adolescência, o percurso teria sido diferente. “Não tinha tentado suicídio, não tinha abandonado a escola, não tinha vivido 20 anos na marginalidade”, constatou. “Teria tido uma vida completamente diferente.”
Para a psicóloga e sexóloga Sara Falcato, especialista em questões LGBTI+, histórias como a de Núria ilustram a importância da autodeterminação de género e do enquadramento legal. “A Lei 38/2018 está alinhada com a evidência científica e protege as pessoas, sobretudo os jovens”, considerou.
Segundo a especialista, a ausência de reconhecimento e de apoio aumenta o risco de ansiedade, depressão e ideação suicida entre pessoas trans, sobretudo durante a adolescência, fase marcada por maior vulnerabilidade.
“Aquilo que causa sofrimento não é a identidade, mas o estigma, a discriminação e a falta de resposta adequada”, explicou, alertando que retirar direitos ou criar barreiras no acesso a cuidados pode agravar significativamente a saúde mental desta população.
Sara Falcato salientou que a possibilidade de usar o nome social e aceder a cuidados afirmativos desde cedo é determinante para o bem-estar. “Obrigar jovens a viver uma puberdade que não reconhecem é profundamente violento”, disse.
Num contexto de debate político sobre estas matérias, a psicóloga alertou para o impacto direto na vida das pessoas: “Só discutir a retirada de direitos já gera medo e insegurança. Estamos a falar de vidas concretas.”
Para a especialista, o debate dos projetos de lei do PSD, Chega e CDS, que pretendem alterar ou revogar a lei 38/2018 foi “escandaloso”, defendendo que as propostas dos partidos vão contra o conhecimento científico e as boas práticas na matéria, representando, por isso, “um retrocesso”.
Para Sara Falcato, estas iniciativas ignoram a evidência acumulada e arriscam comprometer direitos fundamentais já consagrados.
A psicóloga alertou ainda para as consequências diretas e graves na vida das pessoas trans que a aprovação desses projetos poderá ter, nomeadamente o agravamento da saúde mental, o aumento do estigma e o afastamento dos serviços de saúde.
“Estamos a falar de medidas que podem aumentar o sofrimento, o isolamento e o risco de suicídio”, sublinhou, defendendo que a proteção legal é essencial para garantir dignidade e segurança.
É neste cenário que se assinala, em 31 de março, o Dia da Visibilidade Trans, uma data que, para Núria, representa mais do que reconhecimento simbólico. “É dar voz a quem sofreu como eu”, disse.
Hoje, com 36 anos, continua a enfrentar desafios, mas recusa o silêncio. “Não é por mim, é pelas próximas gerações”, afirmou. “Para que nenhuma criança tenha de passar pelo que eu passei.”
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