A Associação Nacional dos Doentes com Artrite Reumatoide (A.N.D.A.R.) denunciou hoje casos de doentes obrigados a fazer todas as semanas mais de 100 quilómetros para levantar medicação porque os hospitais não têm ‘stock’.
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Em declarações à Lusa, Arsisete Saraiva, da A.N.D.A.R., apontou o exemplo de uma doente que vive na Lourinhã, é seguida no Hospital Beatriz Ângelo (Loures) e tem uma autorização especial desta unidade de saúde para levantar medicação de três em três meses, quando vai à consulta.
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“Ainda assim, continuam a obrigar a doente a vir da Lourinhã, fazer 160 quilómetros, todas as semanas para levantar uma caneta da medicação [que dá para uma semana]. A justificação agora é que não têm ‘stock’”, explicou a responsável, acrescentando que a unidade de saúde hoje pediu emprestada uma caixa de quatro canetas a outro hospital para poder servir a utente.
Em resposta à Lusa, o Hospital Beatriz Ângelo explicou que a compra da medicação em causa é feita através de um circuito centralizado, a que as unidades hospitalares estão vinculadas, da responsabilidade da SPMS – Serviços Partilhados do Ministério da Saúde.
“Quando, pontualmente, se verificam constrangimentos no fornecimento por parte desse circuito, e para garantir a continuidade do tratamento para todos os doentes, é ajustada a quantidade dispensada a cada um, tendo, neste caso, sido assegurada medicação suficiente para o período imediato, com reposição subsequente nos termos mais cómodos para a utente, assim que normalizado o fornecimento”, refere o hospital.
A unidade de saúde sublinhou ainda que, neste caso concreto, “não esteve em causa a ausência de medicação nem a impossibilidade de resposta por parte do hospital”.
“Sempre que necessário e cumprindo com o designado no funcionamento em rede das Unidades do SNS [Serviço Nacional de Saúde], é articulada entre hospitais a garantia de que nenhum doente fica sem qualquer tipo de terapêutica”, acrescentou.
À Lusa, Arsisete Saraiva contou ainda outro caso de um utente que viu o Hospital Garcia de Orta negar-lhe duas embalagens de uma medicação em que cada uma que dá apenas para 28 dias.
“Como estes comprimidos têm uma semivida de 24 horas o doente tem mesmo de ter outra caixa em casa pois se fizer algum intervalo o que tomou para trás perde toda a eficácia”, explicou, sublinhando que isto também causa um stresse acrescido nos utentes e que estas dificuldades se fazem sentir em várias unidades hospitalares.
Numa reportagem emitida na quinta-feira à noite, a RTP deu conta de que há hospitais a pedir emprestados medicamentos a outras unidades, por falta de ‘stock’, para não interromper o tratamento dos utentes.
Um despacho de agosto de 2024, da então secretária de Estado da Saúde, definiu que os medicamentos dispensados em regime de proximidade – nos serviços farmacêuticos da unidade hospitalar onde são prescritos, noutra unidade de saúde, ou na farmácia comunitária – devem abranger um período de dois meses.
Este despacho deveria produzir efeitos a partir do dia 01 de janeiro de 2025.
A responsável da A.N.D.A.R., que levanta nos hospitais medicamentos para utentes no âmbito de um projeto que a associação tem desde a pandemia, diz que as regras são aplicadas de forma diferente consoante o hospital e as comissões de farmácia, órgãos técnicos consultivos das unidades de saúde, responsáveis pela seleção, padronização e uso racional e seguro de medicamentos.
Arsisete Saraiva lamenta ainda que algumas comissões de farmácia apliquem os seus critérios de prescrição e não cumpram muitas vezes o que o médico prescreve: “obrigam o médico a preencher documentos com a ficha clínica do doente e depois eles é que querem ter os critérios de prescrição”.
A responsável lamenta que a medicação para os doentes com artrite reumatoide ainda não esteja a ser dispensada na farmácia comunitária, pois tem a mesma classificação de outros medicamentos que já ali são dispensados.
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