Sobral Gordo, em Arganil, acorda devagar, mas no velho (renovado) lavadouro comunitário ainda ecoam histórias de outros tempos — e de dias que ninguém quer repetir.
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Entre tanques de pedra gastos pelo uso e água limpa que corre sem pressa, encontramos Helena Nunes, uma das vozes de uma aldeia que resiste ao esquecimento.
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“Venho cá de vez em quando… , mas gosto”, conta-nos, enquanto esfrega a roupa com a naturalidade de quem nunca esqueceu o gesto.
Aqui, mais do que lavar roupa, lavava-se a alma — e trocavam-se novidades. “Isto era o jornal da terra”, diz, com um sorriso. “Saía aqui a edição diária… eram os tanques da má-língua!”
Mas nem tudo são memórias leves. O cenário idílico contrasta com marcas profundas deixadas pelos incêndios de agosto do ano passado. Helena não esquece o medo. “Este metia mais medo… era para abafar. Não conseguia estar em casa”, recorda, ainda com a voz marcada pela tensão desses dias.
A sorte, acredita, foi a união da aldeia. “Estava muita gente, era festa… e isso salvou-nos. Moços novos, todos a trabalhar para guardar as casas. É o nosso bem.”
Apesar da beleza natural, Helena não esconde o sentimento de abandono. “Estamos muito isolados. Não temos uma mercearia, não temos nada… nem um fósforo.” Depois de mais de 40 anos em Almada, regressou à terra natal há cerca de uma década — uma decisão do coração. “Isto é um paraíso… mas está esquecido.”
O isolamento faz-se sentir em coisas simples — ou essenciais. “Estamos há semanas sem internet. Nem sempre temos rede. E o telefone faz falta… por alguma razão o pedi”, desabafa.
“Somos todos amigos. Se me falta açúcar, vou à vizinha… e depois trago. Aqui ajudamo-nos.”
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