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“Ninguém quer saber de nós” – Aldeia de Arganil resiste com 3 habitantes

Notícias de Coimbra | 25 minutos atrás em 17-03-2026

No concelho de Arganil, a pequena aldeia do Sardal é hoje um retrato duro do interior esquecido.

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Cercada pelo fogo no verão de 2025, a localidade conta atualmente com apenas três residentes permanentes — e uma solidão que pesa mais do que as marcas deixadas pelas chamas.

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O Notícias de Coimbra percorreu, esta terçça-feira, 17 de março, Mourísia, Sobral Gordo e terminou no Sardal, onde a destruição ainda é visível e o abandono se sente em cada casa fechada.

“Há dias em que estou aqui completamente sozinho”, conta Eduardo Pinto, de quase 80 anos, um dos poucos habitantes que resistem no local.

Recusa o título de “guardião”, mas admite a realidade: “Muitas vezes estou literalmente sozinho. E isso custa muito.”
A solidão tornou-se uma presença constante. “É muito bonito dizerem que o silêncio é bom… mas isso é para quem vem cá de férias. Para quem vive aqui o ano todo, o silêncio faz muito barulho”, desabafa.

Eduardo vive sozinho há mais de uma década. Saiu ainda jovem para Lisboa, onde construiu família, mas regressou à terra natal. Os filhos e netos gostam de visitar, mas raramente o fazem.

O motivo? Falta de condições básicas.

“Não há rede de telemóvel decente, não há internet, não há telefone. Como é que eles vêm?”, questiona. E reforça: “Isto não é Portugal de segunda, é de quarta categoria.”

Durante os incêndios de agosto de 2025, a aldeia esteve rodeada pelas chamas. Apesar de haver mais pessoas na altura — o cenário foi de medo.

“Foi assustador. Mandámos as crianças embora. Aquilo era um inferno”, recorda.

O isolamento não é só emocional — é também físico. As estradas estão degradadas, dificultando acessos, especialmente para uma população envelhecida.

“Enquanto conseguir conduzir, vou indo… mas custa. E ninguém aparece aqui para saber se estamos bem”, lamenta.

“Nunca vejo ninguém bater à porta e perguntar: ‘Ainda respiras?’”, diz, com amargura.

Durante o mês de agosto, o Sardal ganha vida. Casas abrem, famílias regressam, há convívio e festa. Mas é uma ilusão temporária.

“Isto existe 15 dias por ano. Depois morre outra vez”, afirma.

E deixa um alerta claro sobre o futuro: “Ainda cá respira gente. Mas por quanto tempo?”

E, como diz Eduardo, “dói muito ser velho aqui. Mesmo quando se ama esta terra.”

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