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Arganil: Maria Helena Gonçalves, a guardiã de Mourísia “que nunca saiu da aldeia”

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 2 horas atrás em 17-03-2026

Sete dias após a passagem do Presidente da República, a pequena aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, regressou ao seu ritmo habitual — lento, silencioso e marcado pela ausência de pessoas.

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Onde há poucos dias se concentravam atenções e visitas oficiais, hoje impera a tranquilidade quase absoluta.

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Maria Helena Gonçalves, 74 anos, é uma das raras residentes permanentes. “Aqui não há quase ninguém”, resume, com naturalidade, enquanto interrompe as tarefas domésticas para conversar.

Maria Helena nunca saiu verdadeiramente da aldeia. As únicas exceções foram visitas a Lisboa e Coimbra, onde tem família. “Vivo aqui sozinha”, conta, descrevendo um quotidiano simples: cuidar da casa, tratar das galinhas e da pequena horta.

Apesar do isolamento, garante que nunca se sentiu sozinha. “Quem está habituado aos barulhos da cidade… aqui é um paraíso.”

Durante os incêndios que afetaram a região, Maria Helena não estava na aldeia no dia mais crítico. Tinha ido visitar uma irmã hospitalizada e acabou por não conseguir regressar de imediato. Ainda assim, não perdeu bens nem a casa. “Fosse o que fosse”, diz, mostrando uma serenidade que contrasta com a gravidade da situação vivida na região.

A presença do Presidente da República foi sentida como um momento importante para os poucos habitantes. “Foi bom”, afirma Maria Helena, sublinhando o simbolismo da visita.

Para os residentes, o gesto representou reconhecimento: uma forma de dizer que a aldeia não foi esquecida. Ainda assim, uma semana depois, os sinais dessa passagem já quase desapareceram — a bandeira colocada na altura já não está, restando apenas marcas do incêndio.

Mesmo assim, Maria Helena relativiza: “Agora tem que ir aos outros. Não é só Mourísia.”

Com apenas cerca de uma dezena de habitantes permanentes — número que cresce no verão com o regresso de emigrantes e familiares — enfrenta o desafio comum a muitas aldeias do interior: o despovoamento.

Maria Helena ficou, tal como a irmã mais velha, enquanto os restantes oito irmãos partiram “para lutar pela vida” em outras cidades e até no estrangeiro.

Hoje, continua a ser uma espécie de guardiã da aldeia e da memória familiar. E, apesar da idade, mantém-se firme: “Só saio quando as condições assim obrigarem.”

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