MOBILIDADE
O carro pode estar a denunciá-lo: sensores dos pneus permitem rastrear rotinas
Imagem: depositphotos.com
Um estudo do IMDEA Networks Institute, em Madrid, alerta que o sistema de monitorização da pressão dos pneus instalado nos automóveis modernos pode permitir o rastreamento discreto de veículos e dos hábitos dos seus condutores.
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O chamado Sistema de Monitorização da Pressão dos Pneus (TPMS) é obrigatório em todos os carros novos vendidos na União Europeia desde novembro de 2014. A tecnologia utiliza sensores instalados nas rodas para medir a pressão e enviar alertas ao condutor quando os valores não estão dentro do recomendado.
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Contudo, segundo a investigação, estes sensores emitem sinais de rádio não encriptados que incluem um número de identificação único do veículo. Esses sinais podem ser captados por recetores simples e de baixo custo, permitindo identificar e seguir o mesmo carro em diferentes locais.
Durante o estudo, os investigadores recolheram mais de seis milhões de mensagens de cerca de 20 mil veículos ao longo de 10 semanas. Para isso, utilizaram recetores de rádio com um custo aproximado de 100 dólares (cerca de 90 euros), instalados junto a estradas e zonas de estacionamento.
De acordo com Domenico Giustiniano, professor do instituto espanhol, os dados recolhidos permitiram identificar padrões de mobilidade e rotinas diárias dos condutores. “A nossa investigação demonstra que estes sinais podem ser usados para seguir veículos e conhecer os seus padrões de movimento”, afirmou.
Os investigadores explicam que o rastreamento através do TPMS pode ser até mais eficaz do que sistemas tradicionais de vigilância. Os sinais de rádio atravessam paredes e obstáculos, não exigem linha de visão direta e podem ser captados mesmo em condições de escuridão ou mau tempo, pode ler-se no SOL.
Além disso, os recetores são passivos — apenas captam sinais — o que os torna praticamente impossíveis de detetar. Os testes mostraram que é possível captar sinais de carros a mais de 50 metros de distância, mesmo quando estes se encontram dentro de edifícios.
Segundo dados divulgados pela investigação, foram recolhidas mais de seis milhões de mensagens durante o período de análise. A partir dessas informações foi possível criar perfis de mobilidade, incluindo horários de chegada ao trabalho, locais visitados com frequência e rotinas previsíveis de deslocação.
Para além do identificador único do sensor, os sinais incluem também dados sobre a pressão dos pneus, o que pode permitir inferir características do veículo ou até se transporta cargas pesadas.
Apesar dos riscos identificados, o atual enquadramento legal europeu não aborda especificamente a segurança destes sistemas. O Regulamento (UE) 2019/2144, que define requisitos de segurança para veículos na União Europeia, não inclui regras sobre encriptação dos sinais emitidos pelos sensores TPMS.
Os investigadores alertam que, sem encriptação ou mecanismos de autenticação, estes sensores continuam vulneráveis a sistemas de vigilância passiva.
Em Portugal, a Comissão Nacional de Proteção de Dados poderá vir a analisar o tema, uma vez que o rastreamento sistemático de veículos sem consentimento pode levantar questões relacionadas com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados.
Para já, não existe uma solução simples para os proprietários de veículos. Desativar os sensores pode ser ilegal, comprometer a segurança e levar à reprovação na inspeção periódica obrigatória.
Os especialistas defendem que a solução passa sobretudo por alterações regulamentares e pela introdução de encriptação destes sinais em futuros modelos de automóveis.
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