Portugal

“Anjo de Portugal” mantém vivos os 59 que se perderam na tragédia de Entre-os-Rios há 25 anos

Notícias de Coimbra com Lusa | 3 horas atrás em 04-03-2026

Imagem: Manuel Roberto/ Público

Vinte e cinco anos após a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Castelo de Paiva, duas famílias continuam a rezar todos os meses o terço junto ao monumento “Anjo de Portugal” em memória dos familiares que morreram na tragédia.

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Arlindo Lopes, que perdeu três familiares no acidente ocorrido em 2001, chega de manhã cedo ao memorial evocativo das vítimas da tragédia de Entre-os-Rios, situado junto à ponte reconstruída naquele concelho do distrito de Aveiro. Vem acompanhado de duas irmãs e, desta vez, trazem um ramo de flores para assinalar o aniversário do irmão falecido, que faria 63 anos no dia 11 de fevereiro.

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Poucos metros mais abaixo, o rio Douro, onde jazem os corpos de 36 vítimas que nunca chegaram a ser resgatados, desliza sem pressas em direção ao mar, indiferente às memórias de quem viveu a tragédia.

Além do irmão, Arlindo Lopes também perdeu no acidente a cunhada e um sobrinho de apenas 4 anos, que viajavam no autocarro que caiu ao rio.

“Nós infelizmente não conseguimos recuperar qualquer uma das vítimas e virmos cá rezar o terço é um momento espiritual de manter viva a memória dos nossos familiares e temos a possibilidade de pôr uma vela, ou uma flor fresca”, disse Arlindo Lopes, adiantando que este momento, que se repete nos últimos domingos de cada mês, traz-lhe alguma paz de espírito.

Inicialmente, chegaram a ser dezenas, mas hoje não são mais de uma dúzia, reunidos no interior da pequena capela situada na base do monumento, inaugurado em 2003, com as fotografias e os nomes das 59 pessoas que morreram no colapso da ponte.

“Neste momento já só continuámos duas famílias. No início eram muitas. Eram para aí 10 ou mais famílias. Estava sempre tudo cheio”, contou Arlindo Lopes.

A oração coletiva, dirigida por Rosa Rodrigues, de 64 anos, mãe de outras das vítimas do acidente, não dura mais de meia hora.

Rosa diz que faz isto há 25 anos, porque o filho que morreu gostava muito de rezar o terço: “Pouco tempo antes de acontecer isto ele dizia-me – ‘oh mãe porque é que não rezamos o terço à noite?’ – e então, como ele gostava, eu continuei”.

Flávia Pinto de 36 anos, a filha mais nova de Rosa Rodrigues, acompanha a mãe nesta oração para honrar o irmão mais velho e as restantes vítimas.

“Basicamente é isso, é honrar quem sofreu aqui tanto, que tanto passou. É o único sítio que temos de culto, visto que o corpo do meu irmão não apareceu. Por isso, é o único sítio onde podemos vir e rezar um bocadinho por ele”, explicou.

Flávia tinha apenas 10 anos quando ocorreu o acidente, mas guarda bastantes memórias da tragédia: “Foram momentos muito dolorosos e muitas noites de sofrimento”.

No final da oração, disse que sente “um bocadinho mais de tranquilidade, mas também muita saudade e muita tristeza”, porque acaba sempre por reviver os momentos que aqui passou há 25 anos.

A mãe prometeu continuar a rezar o terço no memorial todos os meses: “Enquanto pudermos e vier alguém, a gente vem sempre. Quando deixar de vir, eu também não venho sozinha”.

Junto à entrada do monumento, Arlindo Lopes olha para o rio, mas disse que não sente raiva pelo sucedido, porque “o rio não foi o culpado”. “Quem foram culpados foram os humanos. Isso está mais que documentado”, atirou, adiantando que a única mágoa que sente está associada a um sentimento de injustiça, por ninguém ter sido responsabilizado criminalmente.

“Se os documentos estavam lá, se os mergulhadores tinham os documentos, os pilares estavam descalços, as provas existiam, como é que não se fez prova? Eu acho que os verdadeiros culpados foram encontrados. Não foram foi culpabilizados”, desabafou.

A Ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, distrito do Porto, e Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, colapsou na noite de 04 de março de 2001, arrastando para as águas do rio Douro um autocarro onde seguiam 53 passageiros e três automóveis com seis pessoas. Não houve sobreviventes.

Mais de cinco anos depois do acidente, em outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu quatro engenheiros da ex-Junta Autónoma de Estradas e outros dois de uma empresa projetista, que o Ministério Público responsabilizava pela queda da travessia.

Os seis técnicos estavam acusados da prática de crimes de negligência e violação das regras técnicas, mas o tribunal entendeu que, aquando das inspeções realizadas pela ex-JAE à ponte, não havia ainda regras técnicas que enquadrassem a atuação dos peritos.

A Associação dos familiares das vítimas recorreu para o Tribunal da Relação que acabou por confirmar a decisão absolutória.

O facto de só terem sido recuperados 23 corpos das 59 vítimas da tragédia da queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, há 25 anos, fez com que muitos familiares vivessem “luto ambíguo”, diz uma especialista no tema.

“Na psicologia, a este tipo de lutos em que as pessoas estão fisicamente ausentes, mas, no fundo, psicologicamente presentes, chamamos de luto ambíguo. Precisamente para, de alguma forma, expor esta dificuldade que existe em equilibrar um processo de luto a par com um ciclo de manutenção de esperança que, muitas vezes, acontece nestes processos. Uma das grandes dificuldades que se prende com este tipo de lutos, eu diria, é a grande ausência da despedida”, explica à Lusa Sandra Torres.

A docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), responsável por várias unidades curriculares sobre luto, reflete sobre as 36 vítimas que não tiveram funeral, por não encontrarem os corpos, após a tragédia de 04 de março de 2001, em que morreram 59 pessoas quando o quarto pilar da ponte Hintze Ribeiro colapsou.

“Os funerais têm, muitas vezes, esta função. Mesmo que simbolicamente eles tenham sido realizados, não existe a possibilidade de as pessoas, de alguma forma, terem feito um processo de despedida que, na sua mente, só acontece quando o corpo, efetivamente, está presente. E, portanto, por muito que possa ter havido um reconhecimento público desta perda, esta despedida mais física nunca pode ser realizada por estas pessoas. E é isto que, de alguma forma, vai trazendo aqui esta situação de ambiguidade que impede, muitas vezes, a aceitação e a reorganização emocional que é exigido que aconteça num processo de luto”, explica.

Para uns, esta ambiguidade manifesta-se com “ruminação persistente” do processo, outros pela “procura mental contínua”, pelos “e se, e se”, uma ‘dor’ que vem de equilibrar esperança e racionalidade, uma dor expressiva que pode levar a “outras emoções que são muitas vezes fortes, intensas e difíceis, em que as mais predominantes costumam ser a culpa e/ou a raiva”.

“Do ponto de vista da raiva, muitas vezes pode ser direcionada para outros. Quando olhamos para a culpa, olhamos mais por uma dimensão interna, quando olhamos para a raiva olhamos, muitas vezes, por uma direção externa, e aqui ela pode ser dirigida para as responsabilidades políticas e administrativas que houve, na manutenção das infraestruturas, ou até o facto de as autoridades não terem feito tudo o que podiam para encontrar os corpos…”, exemplifica, como “possíveis pensamentos” associados.

A consequência acaba por ser “dificultar todo um processo de ajustamento”, o que por sua vez faz com que o “luto se mantenha muito intenso ao longo dos anos”, com o peso da sociedade que pode fazer as pessoas sentirem-se “isoladas e incompreendidas”, por esperarem que as pessoas sigam em frente.

“Ao dificultar todo um processo de ajustamento, o luto vai se mantendo muito intenso ao longo dos anos. (…) E muitas vezes há aqui alguns processos que podem não ser conscientes, como até perante a sociedade: ‘se eu fizer este processo de luto, eu vou estar a dizer que de alguma forma eu aceitei isto, eu resignei-me, e no fundo o que eu quero é manter a pessoa viva’”, acrescenta a especialista.

Sendo um luto um processo “profundamente individual”, as reações de cada pessoa “podem ser muito diversas”, e numa circunstâncias como a tragédia em Entre-os-Rios, “com todo este mediatismo envolvido”, há pessoas para quem a lembrança chama à memória feridas antigas, mas para outros um sinal de homenagem, “uma forma de manter vivas as pessoas que se perderam”.

“Manter a ligação com a pessoa que se perdeu hoje é visto como um processo adaptativo e isto pode manifestar-se seja na valorização das memórias, seja em conversar com as pessoas em pensamento, sejam vivências que honrem o seu legado e portanto estes laços podem proporcionar conforto e significado, mesmo que em muitas circunstâncias isto signifique voltar a lembrar e reviver a dor da perda que aconteceu há 25 anos”, aponta.

Este ajustamento a uma nova vida, mesmo mais de duas décadas depois, tem de ser compreendido como uma reconstrução “do significado e da relação com a pessoa que se perdeu”.

“Nós dizemos muitas vezes que as pessoas não abandonam o passado, mudam a sua relação com ele, é isto que se pretende num processo de luto. Mas muitas vezes as pessoas é isto que sentem: ‘se eu não mostrar que continuo a sofrer, se eu não mostrar que continuo a privar-me de tudo o que é alegre, eu não tenho forma de mostrar aos outros que esta pessoa continua a ser muito importante para mim’”, afirma Sandra Torres.

O suporte social, sobretudo numa perda “violenta e traumática, claramente inesperada”, ganha papel de grande relevância nestes processos, bem como a compreensão de que a diversidade é a pedra de toque para se quebrar um “mito que se cria na sociedade: o luto não é um processo linear”, e não é regra que se torne mais fácil com o passar dos anos.

“O que é importante é que esses momentos orientados e centrados na perda também tenham alternância com momentos em que as pessoas comecem a assumir tarefas, muitas vezes que a pessoa que desapareceu fazia, que se ajustem a novos papéis sociais e rotinas, que consigam ir resolvendo questões práticas do dia-a-dia e que até vão de alguma forma reavaliando a sua própria identidade e o seu próprio sentido de vida. E é nesta alternância e entre estes momentos que as pessoas vão avançando”, aconselha Sandra Torres.

“O luto é simplesmente amor que não tem lugar para ir”, completa.

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