A Cáritas Portuguesa defendeu hoje que o combate à pobreza infantil tem sido “muito insuficiente”, apontando que Portugal permanece um dos países europeus com menos transferências sociais para a redução do risco de pobreza nas crianças.
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Para esta organização católica, “um traço muito importante do progresso lento da luta contra a pobreza é o observado nas crianças”, apontando que o investimento da sociedade tem sido “muito insuficiente” quando se trata de combater a pobreza infantil.
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“Por um lado, a taxa de risco de pobreza nas crianças em 2024 (17,6%) situava-se acima da média do conjunto da população (15,4%) e muito longe do objetivo de 10% da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Por outro lado, a taxa de privação material específica das crianças situava-se em 15,1%, um valor acima da média europeia e do registado em 2021”, lê-se no mais recente relatório sobre “Pobreza e Exclusão Social em Portugal”, divulgado hoje.
A Cáritas salienta que “a análise da privação das crianças ancora-se inevitavelmente na situação das suas famílias” e a “evidência sugere que existe uma fratura profunda” entre as crianças que vivem em famílias em privação material e social severa e as restantes.
“A privação material é muito acentuada nas crianças que vivem em famílias em privação material e social severa. Destas crianças, mais de 50% não participa regularmente numa atividade extracurricular ou de lazer, mais de 35% não consegue substituir roupa usada por nova”, revela o relatório.
Segundo o documento, “mais de 30% não participa em viagens escolares não gratuitas, mais de 30% não consegue convidar amigos para brincar e comer, mais de 20% não tem um espaço adequado para estudar e mais de 6% não tem possibilidade de celebrar ocasiões especiais”.
Por oposição, nas crianças que não vivem em situações de privação severa, “as situações de privação material específica são contidas e, por vezes, residuais”.
Para a Cáritas, em todos os casos de privação “é a capacidade de estabelecer laços sociais e de ter uma escolaridade plena que fica condicionada”.
“Estas são crianças que a sociedade está a deixar para trás”, criticou, apontando que esta exclusão tem reflexo em inúmeras dimensões da vida destas crianças, sendo “a saúde uma das mais intoleráveis”.
Segundo o relatório, em 2024, 2,3% das crianças que viviam em famílias em risco de pobreza ou exclusão social disseram ter uma saúde má ou muito má, enquanto nas restantes crianças o valor foi de 0,7%.
O documento refere também que a situação financeira aos 14 anos condiciona a probabilidade de uma pessoa viver em risco de pobreza enquanto adulto e acrescenta que em Portugal “21,2% daqueles que viveram numa situação financeira má na adolescência vivem hoje em risco de pobreza”.
“Em geral, uma infância vivida em pobreza severa condiciona muito as possibilidades que se abrem às crianças. A transmissão intergeracional da educação é um dos mecanismos que contribui para esta transmissão intergeracional da pobreza”, sublinha a Cáritas.
A organização defende, por isso, que “a erradicação da pobreza infantil é um desígnio urgente que apela a um consenso na sociedade”, consenso esse que “deve ancorar-se na ideia de criação de uma sociedade mais justa e na evidência sobre os benefícios que gera para toda a sociedade no longo prazo”.
Diz ainda que este desígnio se fundamenta não só em razões de justiça primária, mas também de sustentabilidade económica, já que “no longo prazo, o investimento na luta contra a pobreza das crianças tem um retorno elevado”.
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