Portugal

“Entre-os-Rios”: 25 anos depois da tragédia, famílias continuam a rezar junto ao “Anjo de Portugal”

Notícias de Coimbra com Lusa | 4 horas atrás em 02-03-2026

Vinte e cinco anos após a queda da ponte Hintze Ribeiro, em Castelo de Paiva, duas famílias continuam a rezar todos os meses o terço junto ao monumento “Anjo de Portugal” em memória dos familiares que morreram na tragédia.

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Arlindo Lopes, que perdeu três familiares no acidente ocorrido em 2001, chega de manhã cedo ao memorial evocativo das vítimas da tragédia de Entre-os-Rios, situado junto à ponte reconstruída naquele concelho do distrito de Aveiro. Vem acompanhado de duas irmãs e, desta vez, trazem um ramo de flores para assinalar o aniversário do irmão falecido, que faria 63 anos no dia 11 de fevereiro.

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Poucos metros mais abaixo, o rio Douro, onde jazem os corpos de 36 vítimas que nunca chegaram a ser resgatados, desliza sem pressas em direção ao mar, indiferente às memórias de quem viveu a tragédia.

Além do irmão, Arlindo Lopes também perdeu no acidente a cunhada e um sobrinho de apenas 4 anos, que viajavam no autocarro que caiu ao rio.

“Nós infelizmente não conseguimos recuperar qualquer uma das vítimas e virmos cá rezar o terço é um momento espiritual de manter viva a memória dos nossos familiares e temos a possibilidade de pôr uma vela, ou uma flor fresca”, disse Arlindo Lopes, adiantando que este momento, que se repete nos últimos domingos de cada mês, traz-lhe alguma paz de espírito.

Inicialmente, chegaram a ser dezenas, mas hoje não são mais de uma dúzia, reunidos no interior da pequena capela situada na base do monumento, inaugurado em 2003, com as fotografias e os nomes das 59 pessoas que morreram no colapso da ponte.

“Neste momento já só continuámos duas famílias. No início eram muitas. Eram para aí 10 ou mais famílias. Estava sempre tudo cheio”, contou Arlindo Lopes.

A oração coletiva, dirigida por Rosa Rodrigues, de 64 anos, mãe de outras das vítimas do acidente, não dura mais de meia hora.

Rosa diz que faz isto há 25 anos, porque o filho que morreu gostava muito de rezar o terço: “Pouco tempo antes de acontecer isto ele dizia-me – ‘oh mãe porque é que não rezamos o terço à noite?’ – e então, como ele gostava, eu continuei”.

Flávia Pinto de 36 anos, a filha mais nova de Rosa Rodrigues, acompanha a mãe nesta oração para honrar o irmão mais velho e as restantes vítimas.

“Basicamente é isso, é honrar quem sofreu aqui tanto, que tanto passou. É o único sítio que temos de culto, visto que o corpo do meu irmão não apareceu. Por isso, é o único sítio onde podemos vir e rezar um bocadinho por ele”, explicou.

Flávia tinha apenas 10 anos quando ocorreu o acidente, mas guarda bastantes memórias da tragédia: “Foram momentos muito dolorosos e muitas noites de sofrimento”.

No final da oração, disse que sente “um bocadinho mais de tranquilidade, mas também muita saudade e muita tristeza”, porque acaba sempre por reviver os momentos que aqui passou há 25 anos.

A mãe prometeu continuar a rezar o terço no memorial todos os meses: “Enquanto pudermos e vier alguém, a gente vem sempre. Quando deixar de vir, eu também não venho sozinha”.

Junto à entrada do monumento, Arlindo Lopes olha para o rio, mas disse que não sente raiva pelo sucedido, porque “o rio não foi o culpado”. “Quem foram culpados foram os humanos. Isso está mais que documentado”, atirou, adiantando que a única mágoa que sente está associada a um sentimento de injustiça, por ninguém ter sido responsabilizado criminalmente.

“Se os documentos estavam lá, se os mergulhadores tinham os documentos, os pilares estavam descalços, as provas existiam, como é que não se fez prova? Eu acho que os verdadeiros culpados foram encontrados. Não foram foi culpabilizados”, desabafou.

A Ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios, no concelho de Penafiel, distrito do Porto, e Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro, colapsou na noite de 04 de março de 2001, arrastando para as águas do rio Douro um autocarro onde seguiam 53 passageiros e três automóveis com seis pessoas. Não houve sobreviventes.

Mais de cinco anos depois do acidente, em outubro de 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu quatro engenheiros da ex-Junta Autónoma de Estradas e outros dois de uma empresa projetista, que o Ministério Público responsabilizava pela queda da travessia.

Os seis técnicos estavam acusados da prática de crimes de negligência e violação das regras técnicas, mas o tribunal entendeu que, aquando das inspeções realizadas pela ex-JAE à ponte, não havia ainda regras técnicas que enquadrassem a atuação dos peritos.

A Associação dos familiares das vítimas recorreu para o Tribunal da Relação que acabou por confirmar a decisão absolutória.

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