Economia
Mau tempo: José conseguiu sorrir de novo após um mês à espera de luz
Imagem: depositphotos.com
A casa de José e Olinda, no concelho de Leiria, esteve às escuras durante um mês. Depois do “suplício”, a luz voltou àquela habitação na quarta-feira, regressando também a tranquilidade e a alegria perdidas pela frustração da espera.
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“São os senhores da luz?”, perguntava José Dionísio ao avistar a equipa de reportagem da agência Lusa junto à sua casa, na Bidoeira de Cima, na manhã de quarta-feira, quando a energia ainda não tinha sido reposta.
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O homem de 86 anos andava de volta da horta destruída pelo vento, a semear batatas para entreter a cabeça, que andava cansada e cheia de um mês às escuras, em que quase não dormiu. “Não pode estar em casa, senão…”, disse então à Lusa a companheira, de 74 anos, Olinda.
Naquele dia, José já tinha estado pela Junta da Freguesia da Bidoeira de Cima, onde esteve quase todos os dias, sempre meia hora antes de o atendimento abrir ao público, para saber de novidades sobre a reposição da energia.
“Estes dias foram os piores dias que passei na minha vida”, desabafou, recordando que o martírio começou mais cedo por aquelas bandas, onde se perdeu a luz dois dias antes de a depressão Kristin assolar a região, quando um camião deitou abaixo o cabo de ligação da eletricidade à sua casa, na zona norte do concelho.
“Isto tem dado cabo da minha cabeça. Fui todos os dias lá falar à junta, mas os capangas de fora, que prometeram mundos e fundos, não passam. Ando a semear batatas para não andar tão doido como tenho andado”, contou.
Durante um mês, José e Olinda socorreram-se de duas velas – uma para a cozinha e outra para o quarto – e uma lanterna a pilhas para as idas à casa de banho.
O casal tinha de jantar ao pôr-do-sol e, por volta das 18:30, já estava na cama, onde as noites eram longas.
“Eu pedia-lhe: ‘Ó Zé, conta uma história’. Ele andou 20 anos em Angola e todos os dias pedia-lhe para me contar uma história de lá, que o tempo ia passando, passando e a gente assim”, recordou Olinda, avisando que o companheiro poderia estar o dia inteiro a falar dos seus tempos naquele país africano.
Aos 86 anos e depois de ter trabalhado em Angola antes da Revolução dos Cravos (que o apanhou numa visita a Portugal, de onde já não saiu), José Dionísio ficou neste mês “na miséria”.
“O dinheiro não vale nada. A felicidade das pessoas é que vale, não é? O dinheiro… A gente para que é que quer o dinheiro?”, perguntava de manhã José, de lágrimas nos olhos, depois de um mês em que a falta de luz o deixou carregado de tristeza e de frustração.
Durante esse período, não terá dormido mais do que uma hora por noite, sobressaltado.
Mas na quarta-feira, ao final do dia, a luz voltou.
Foi Olinda que avistou junto à casa a carrinha da equipa que andava a repor a eletricidade. Chamou o companheiro, que andava na horta, e um dos técnicos pediu para entrar em casa para verificar o contador. Depois de uma chamada do trabalhador a dizer que estava mais um cliente resolvido, fez-se luz na habitação, mais de quatro semanas depois.
“Louvado seja Deus, que já temos luz!” foi a reação de José, como recorda agora a sorrir, no momento em que a luz voltou – e em força, que todas as divisões da casa tinham os interruptores ligados.
“O meu coraçãozinho andou tão triste que vocês nem imaginam”, salienta Olinda Marques.
A mulher lamenta o mês difícil, sobretudo para o seu companheiro, que parece ter vivido “mais uns anos” no espaço de semanas.
Agora, o casal espera voltar ao descanso da vida que tinham, sempre de volta da horta e dos canários engaiolados junto à entrada da casa, que naquela quarta-feira, 28 de de janeiro, ao fim do dia, enquanto o sol se punha na Bidoeira, cantavam, também eles com direito a lâmpada ligada.
“Até os passarinhos parecem estar felizes com a luz”, diz Olinda, antes da primeira noite de verdadeiro descanso, um mês depois.
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