Universidade

Equipa de Coimbra estuda em Portugal tratamento inovador para a depressão na gravidez e no pós-parto

Notícias de Coimbra | 4 horas atrás em 24-02-2026

Uma equipa de investigação, liderada pela Universidade de Coimbra (UC), está a estudar em Portugal a viabilidade e a aceitabilidade de um tratamento não invasivo e sem recurso a medicamentos para a depressão na gravidez e no pós-parto.

Com esta intervenção, que já revelou ser eficaz em estudos realizados em outros países, as investigadoras esperam conseguir disponibilizar no país um tratamento que pode chegar, de forma fácil, a mais mulheres que experienciem depressão durante a gravidez ou após o parto.

Este tratamento resulta da combinação da estimulação elétrica transcraniana de baixa intensidade (tDCS) com uma intervenção psicológica, de base cognitivo-comportamental, suportada por uma aplicação móvel, e vai ser disponibilizado pela primeira vez em Portugal na Unidade Local de Saúde de Coimbra (ULS de Coimbra), mais precisamente na Maternidade Bissaya Barreto.

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

publicidade

Em concreto, “o tratamento tem a duração de dez semanas: nas primeiras três, a pessoa em tratamento realiza cinco sessões por semana (uma por dia) e nas sete semanas seguintes realiza três sessões. Cada sessão inclui 30 minutos de estimulação cerebral associada a um conjunto de exercícios oferecidos pela aplicação, integrados numa intervenção psicológica cognitivo-comportamental breve”, explica a docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC) e investigadora do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), Ana Ganho Ávila.

Sobre a estimulação elétrica, a investigadora revela que “a tDCS é uma técnica não invasiva e não farmacológica que permite modular a atividade neuronal, tornando determinadas áreas do cérebro mais ou menos excitáveis. Atua diretamente no funcionamento dos neurónios, sendo uma técnica segura e indolor quando utilizada sob supervisão médica. As sessões de estimulação podem ser dirigidas a regiões específicas do cérebro, o que torna esta técnica uma forma prática de influenciar o funcionamento cerebral, resultando em melhorias no estado emocional e cognitivo”.

A equipa da UC decidiu trazer esta intervenção terapêutica para Portugal depois de “já ter sido testada no Reino Unido com resultados encorajadores”, acreditando que “será uma oportunidade importante para alargar o leque terapêutico existente no Serviço Nacional de Saúde para grávidas e mulheres a amamentar com sintomatologia depressiva que procuram alternativas não farmacológicas”, avança a docente da Universidade de Coimbra. A facilidade de utilização em casa e o facto de ser uma alternativa não farmacológica são alguns aspetos positivos destacados pelas participantes do estudo no Reino Unido, que apresentaram, por exemplo, melhorias no humor, nos sintomas depressivos, no sono e no bem-estar geral, algumas após poucas semanas de utilização.

Sobre a aplicação no contexto português, a equipa já realizou um estudo com um grupo focal de mulheres com história de sintomatologia depressiva e profissionais de saúde perinatal para aferir a aceitabilidade do tratamento. Os resultados deste estudo encontram-se publicados no artigo científico Acceptability of remotely supervised Home-Based transcranial direct current stimulation combined with Cognitive-behavioural-based app for peripartum depression: perspectives from women with lived experience and mental health professionals, disponível aqui. A automonitorização de sintomas e a forma simples de utilização foram dois aspetos destacados sobre as vantagens deste tratamento.

Depois deste estudo, seguiu-se a formação da equipa de psiquiatras e psicólogos clínicos da Maternidade Bissaya Barreto que vão implementar o tratamento. Neste momento, está a decorrer a implementação do tratamento junto de 40 mulheres grávidas ou no período pós-parto, que vão realizar o tratamento ao longo de dez semanas.

“Através deste estudo observacional vamos analisar a viabilidade deste tratamento combinado junto de mulheres que são acompanhadas na Maternidade Bissaya Barreto”, destaca Ana Ganho Ávila. Em comparação com outras possibilidades de tratamento já existentes, a também psicóloga clínica elucida que “este tratamento apresenta um perfil de segurança elevado, incluindo para mulheres grávidas e mulheres a amamentar, não colocando riscos conhecidos nem para a mãe nem para o bebé ou recém-nascido”. “Por essa razão, pode ser considerado como uma alternativa segura ou um complemento à medicação antidepressiva, cuja utilização é frequentemente vivida com receio por muitas mães e famílias durante a gravidez e o período pós-parto, devido ao risco de exposição do feto ou do bebé através da placenta ou do leite materno. Além do mais, é um tratamento que pode ser realizado em casa, em total segurança, evitando as deslocações diárias às unidades clínicas que outras alternativas de estimulação cerebral exigem”, acrescenta.

“A resposta à saúde mental materna é cada vez mais urgente e Coimbra é uma referência nesta área. Este projeto é um contributo importante, que possibilita à ULS de Coimbra disponibilizar às suas utentes grávidas e no pós-parto acesso a uma intervenção inovadora e não invasiva”, frisa o Presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, Francisco Maio Matos. “Para além disso, este projeto está perfeitamente alinhado com o nosso compromisso, enquanto ULS universitária, de articulação e valorização da investigação, inovação e conhecimento e de reforço da ligação estratégica entre a ULS de Coimbra e o ecossistema académico e científico. Estamos sempre disponíveis para apoiar e fomentar projetos que contribuam para ganhos em saúde, em estreita colaboração com a Universidade”, acrescenta.

PUBLICIDADE

publicidade