Primeiro, veio o vento que levou telhado e chaminé. Depois, a chuva, que fez desabar o pladur dos tetos falsos da casa de Madalena, nas Colmeias, Leiria. Desde então, dorme num pequeno anexo transformado num quarto, “um triste remédio”.
Madalena Azevedo tem passado as últimas duas semanas a dormir numa antiga cozinha anexa à casa, com cerca de quatro metros de comprimento por dois de largura, depois de se ter tornado impossível continuar na sua habitação.
Naquele anexo, há agora uma pequena cama de ferro branca, uma mesinha, um escorredor para a loiça e uma salamandra perto da cabeceira que ajuda a aquecer as noites frias. No chão, há um cartão a fazer de tapete.
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“Aquilo é um pobre remendo, um triste remédio”, conta a mulher de 64 anos, viúva, enquanto aponta para o exíguo anexo que por estes dias faz as vezes de quarto.
Na casa, as marcas do vento e da chuva são bem visíveis. Na cozinha, as infiltrações multiplicam-se, na sala, é possível ver o céu, mesmo com algumas lonas a tentar tapar o estrago da tempestade, que fez a chaminé desabar para dentro de casa, rebentando com os barrotes do telhado e com o antigo teto de madeira daquela divisão.
No quarto de Madalena, o pladur caiu. Num dos quartos da cave da casa, onde dormia o filho mais novo, com companheira e filha, o teto falso também cedeu por completo e, mesmo com o sol, o cheiro a humidade ainda está presente.
“Está tudo destruído. Tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. Não tem nada que se aproveite”, afirma Madalena, lamentando que tudo tenha acontecido quando o seu filho mais novo, de 29 anos, andava a fazer obras pela casa para lhe dar uma nova cara: escadas novas, pladur, chão, casa de banho.
Agora, não há “como viver”, desabafa a mulher, que se lembra bem da madrugada em que a depressão Kristin a deixou sem teto.
Madalena tinha acabado de ir à casa de banho quando a luz foi abaixo. Logo de seguida, veio o barulho do vento e começou a sentir as telhas a voar.
Estava na cozinha, quando a chaminé da sala caiu. O filho estava fora, em trabalho, e foi ter com a sua nora e neta para passar as horas seguintes, até irem para a casa de um filho, que mora uns metros acima na rua.
A família ficou por lá uns dias, mas decidiu voltar. Também esse seu filho não tinha divisão onde não chovesse.
Quando regressou à sua casa, ainda sem luz, pôs uma cama na antiga cozinha anexa à habitação, que estava “cheia de lixo”.
“Tirei o lixo todo, dei um arranjo para pôr a cama e pronto”, conta.
Também o filho mais novo improvisou um outro quarto na cave da casa, onde se sente a humidade e a água escorre de uma das paredes.
“O possível foi isto. A gente improvisou e foi isto que se pôde fazer”, resume Madalena.
Nas duas semanas em que está a dormir no anexo, diz que nunca ninguém a foi procurar: “Ninguém se dignou a vir aqui. Nem proteção civil, nem Junta de Freguesia. Só umas senhoras do apoio, que vieram e trouxeram mercearia”, conta, em alusão a uma equipa de voluntários da iniciativa Leiria Unida.
Além da comida, vieram também “umas palavrinhas” e, depois, uma ida a uma consulta de psicólogo assegurada por aquele projeto.
“Eu fui porque tive de tomar medicamentos, tive de comprar calmantes, que eu não estava em mim. Não estava, nem estou. Nos primeiros dias, nem sabia o norte das coisas”, afirma.
Para tentar fugir à ansiedade, vai dando um jeito ao pátio e à volta da casa, onde ainda há pedaços de pladur e telhas fora de lugar.
“Tento dar uns jeitos, pôr roupa a lavar que estava toda encharcada e arrumar alguma coisa e fazer alguma coisa. Tenho de ocupar o tempo, porque, caso contrário, dava em doida”, sublinha.
Trata também da ovelha e cordeiro que tem à frente de casa e de quatro ou cinco galinhas, mas admite ainda não ter força nem vontade para andar de volta do quintal.
“Pensava agora que ia ter uma velhice melhor e só tenho uma velhice de problemas”, lamenta a mulher, que tem como único rendimento a pensão de viuvez do marido, falecido há quatro anos.
A vida de Madalena, vinca, nunca foi fácil.
Os pais eram alcoólicos, o primeiro casamento, vivido num barracão de tijolos e chapas de zinco, foi marcado por violência doméstica e álcool, que terminou com divórcio, depois de uma “carga de porrada”, recorda.
Agora, olha para a casa que comprou há 12 anos e vê “uma vida destruída, uma vida desfeita”, sem saber quanto tempo as obras irão demorar, se terá apoios ou se a seguradora irá dar-lhe o que precisa para se reerguer.
“Vivo com estes remendos, que isto nem é viver. Uma pessoa está aqui no meio dos destroços e é obrigada a estar aqui. O que é que a gente há de fazer?”, suspira Madalena.