Portugal

Há mais de três semanas sem luz, Silvino sente a solidão a apertar

Notícias de Coimbra com Lusa | 3 horas atrás em 20-02-2026

Imagem: depositphotos.com

Silvino, de 80 anos, suspira depois do sol se pôr e a casa ficar na penumbra, em Leiria. Vem aí mais uma noite longa, mal dormida e escura. São mais de três semanas assim e a solidão aperta cada vez mais.

De bigode branco, óculos descaídos no nariz, Silvino Ferreira dos Santos olha de forma fixa para a salamandra, onde o borralho que arde vai-lhe aquecendo os pés nus. Ao longe, ouvem-se alguns latidos de cães e carros a passar junto a uma estrada das Chãs, na freguesia de Regueira de Pontes, onde vive numa casa escondida do resto da rua.

Na maior parte das moradias da zona, vê-se luz, os candeeiros de iluminação pública voltaram a ligar e a vida parece que segue a normalidade possível, depois da passagem da depressão Kristin ter feito voar telhas, destruir coberturas de empresas, interromper a vida quotidiana e destruir uma rede elétrica que, passadas mais de três semanas, ainda não está completamente reposta.

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Silvino faz parte dos mais de 6.000 clientes da E-Redes que ainda estão privados de energia. Se alguns encontram remendos provisórios como geradores que mantêm o essencial ligado ou puxadas de energia das casas de vizinhos e familiares, este homem de 80 anos, que foi cantoneiro na Câmara de Leiria, tem apenas a iluminar a sua casa a chama que sai da salamandra da sala e duas velas brancas que usa para não tropeçar no escuro a que está votado no resto da casa.

“Isto é uma tristeza”, conta Silvino, que vai procurando conter as lágrimas enquanto fala com a agência Lusa.

Se ao início pensou que a situação ficaria resolvida num par de dias, hoje, a frustração vai-se acumulando, enquanto ouve vizinhos, familiares e amigos terem luz e a sua casa continuar às escuras.

“Agora já está a mexer comigo. Desde o princípio desta semana que me custa cada vez mais estar assim – todos os dias à noite em que me vou deitar – e dói, dói, dói”, diz.

Durante o dia, procura entreter-se com a horta, beber um café com amigos e conversar um pouco. Na casa, para se conseguir barbear, move um espelho para a sala para usar a luz do dia, para tomar um duche tem de levar uma vela para a casa de banho e aproveita o pôr do sol para jantar qualquer coisa que não seja preciso guardar no frigorífico, que está vazio.

Por volta das 21:00, já está na cama e é à noite que tudo custa mais.

“O que é que fico aqui a fazer? Estou à luz das velas. Não tenho televisão, não tenho nada. Passo aqui um bocado e depois vou para a cama”.

As noites são longas e mal dormidas, que “uma pessoa depois na cama pensa, pensa, pensa, e às vezes pensa no que não devia pensar”.

Neste momento, Silvino diz que sente “revolta, angústia, frustração, tristeza – tudo, agora junta-se tudo”.

“E sozinho dói mais. Sinto mais a solidão, que já a tinha, mas agora aperta muito mais”, conta o homem, viúvo há três anos, e que, por estes dias, olha para a falta de luz como uma reclusão que vai ganhando forma: “Sinto-me preso”.

Silvino tem procurado ajuda na Junta de Freguesia de Regueira de Pontes. Ainda na quinta-feira lá passou pela manhã para perceber quando é que a luz poderia voltar, mas “eles, coitados, são uns incansáveis, mas também não conseguem resolver”.

“Pensamos que amanhã vem a luz, que amanhã é um novo dia, que tem de ser um dia de cada vez. É a única forma”.

Silvino tem saudades do som da televisão, de ver o Preço Certo na RTP, de se sentir menos sozinho. Por estes dias, vai-se virando também para a fé para aguentar, “que há sempre um Deus que nos guia”.

Os filhos ainda o ajudam no fim de semana, mas da casa, vinca, não sai.

“A nossa casinha, a nossa brasinha”, diz o homem que vive naquela moradia há 55 anos.

Mesmo que a luz venha, Silvino diz que já lhe vai ficar uma cicatriz destas três semanas.

“Não podemos deixar cair os braços. Temos de ser fortes. Mas há momentos em que a gente se vai mesmo abaixo”.