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Tempestade arrasa quartel dos Bombeiros de Penela. “Não queremos visitas, queremos respostas”
O cenário é de guerra. Telhados arrancados, vidros estilhaçados, ambulâncias danificadas e uma central de emergência à beira do colapso. O quartel dos Bombeiros Voluntários de Penela foi o mais atingido do distrito de Coimbra pelo violento “comboio de tempestades”. E a revolta cresce ao ritmo do silêncio das entidades oficiais.
O Notícias de Coimbra esteve no local e testemunhou a dimensão da destruição.
A depressão Kristin— seguida por Leonardo e Marta — não deu tréguas. A cobertura onde estavam estacionados os carros de incêndio foi literalmente arrancada pela força do vento. As chapas voaram até ao IC3. Portões e portas foram arrancados, janelas destruídas, camaratas inundadas.
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O prejuízo? Assustador.
“Só nestas duas infraestruturas estamos a falar de perto de 200 mil euros. No total, não acredito que fique por menos de meio milhão de euros”, revelou o presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Penela, Jorge Pereira.
E não é só o edifício operacional que está afetado. O centro de treinos — fonte essencial de receita — está completamente isolado. As oficinas, onde faziam a manutenção das ambulâncias e equipamentos, ficaram inacessíveis.
“Tínhamos formação marcada para o próximo fim de semana. Tivemos de cancelar. Não há acesso. Não sabemos quando haverá”, lamentou o dirigente.
O quartel já recebeu várias entidades: Liga dos Bombeiros, Autoridade Nacional de Proteção Civil, Federação de Coimbra e até o secretário de Estado da Proteção Civil.
Mas a ajuda concreta continua por chegar.
“Mostraram solidariedade, mas respostas… zero”, afirmou Jorge Pereira sem rodeios.
E deixou claro o desespero: “Nós não queremos visitas. Queremos respostas.”
A situação financeira agrava o drama. A associação denuncia atrasos de pagamentos do INEM desde outubro e uma dívida da ULS que ronda os 250 mil euros.
“Todas as entidades nos devem dinheiro. Vivemos dos donativos das pessoas”, revelou.
No centro de operações de emergência, o cenário é igualmente alarmante. Vidros em risco iminente de queda estão apenas seguros por plástico improvisado.
“Se o vidro partir, o plástico vai aguentar para não ferir as pessoas”, explicou o segundo comandante Vítor Gomes.
Na madrugada da tempestade, estavam seis operacionais dentro da central. O medo existiu, mas foi rapidamente substituído pelo dever.
“Não houve receio. Quando começaram as chamadas, fomos para a rua. O nosso intuito é socorrer”, afirmou.
Nos dias seguintes, foram registadas mais de 400 ocorrências: cortes de árvores, limpezas de vias, infraestruturas destruídas. E, mesmo com o quartel em ruínas, nunca deixaram de assegurar emergências e hemodiálises.
O paradoxo é cruel: os homens e mulheres que socorrem a população trabalham agora num edifício considerado de risco.
“Este é o quartel mais afetado do distrito”, admite o segundo comandante.
Enquanto aguardam por fundos prometidos, a pergunta ecoa pelos corredores danificados:
“Como vai ser o futuro? Vamos reconstruir tudo igual para daqui a dois meses voltar a voar?” questiona Jorge Pereira.