A antropóloga moçambicana e investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra Maria Paula Meneses morreu no domingo, após uma “luta grande contra um cancro pancreático”, com escritores a assinalar “referência intelectual” para Portugal e Moçambique.
“A minha mãe faleceu em Coimbra depois de uma luta grande contra um cancro pancreático”, disse à Lusa Sofia Meneses Cassimo, filha da antropóloga.
Maria Paula Meneses morreu na manhã de domingo, no IPO de Coimbra, cidade onde residia, enquanto também investigadora e coordenadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.
PUBLICIDADE
Para Sofia, a mãe “cumpriu com grandiosidade a sua missão”, um sentimento também partilhado por vários portugueses e moçambicanos, em mensagens de condolências publicadas nas redes sociais.
“Estamos serenos na certeza de que ela encontrou a sua paz e cumpriu com grandiosidade a sua missão”, disse Sofia Meneses Cassimo.
O velório e funeral da antropóloga moçambicana vão decorrer em Portugal, no Crematório Municipal de Coimbra, indica-se no programa das cerimónias enviado à Lusa pela família.
Diversos escritores e figuras lamentaram a morte de Maria Paula Meneses, considerando-a uma das “maiores referências intelectuais” de Moçambique e uma das “antropólogas africanas mais influentes das últimas décadas”.
“Deixou neste mundo duro e cruel um verdadeiro exército de intelectuais que, em sua memória, continuarão a honrar o seu legado e a fazer valer a sua obra, a sua ética e a sua coragem”, escreveu Boa Monjane, escritor moçambicano.
“O que marcava a Paula eram duas coisas principais: um conhecimento amplíssimo sobre processos sociais em África e uma crítica implacável à maneira como as ciências sociais no ocidente assumem uma superioridade epistémica em relação a outras tradições”, escreveu também o escritor, cientista político e pesquisador brasileiro Leonardo Avritzer.
Maria Paula Guttierrez Meneses nasceu em 08 de abril de 1963 em Maputo, capital moçambicana, e no CES da Universidade de Coimbra integrava a linha de investigação sobre “Europa e o Sul global: patrimónios e diálogos” e também o grupo de trabalho sobre as Epistemologias do Sul.
A investigadora continuava a apoiar e estava associada à Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga de Moçambique, e a Universidade Pedagógica (UP) em Maputo, “onde sempre procurou continuar a dar o seu contributo”, segundo a filha.
Doutorada em antropologia pela Universidade de Rutgers, dos Estados Unidos da América, e mestre em História pela Universidade de São Petersburgo, da Rússia, foi também investigadora visitante junto da Universidade de Paris 8, França, em 2022.
De acordo com informação na página da Universidade de Coimbra, entre vários temas de investigação, Meneses destacou-se pelos debates pós-coloniais em contexto africano, o pluralismo jurídico e “o papel da história oficial, da(s) memória(s) e de ‘outras’ narrativas de pertença nos processos identitários contemporâneos”.
“[Participou] em vários projetos de investigação que resultaram na organização e publicação de vários livros e artigos. [Lecionava] em vários programas de doutoramento do CES e [co-coordenava] com Karina Bidaseca (…) o curso internacional ‘Epistemologias do Sul’”, lê-se na biografia publicada pelo CES, na qual se refere que a antropóloga e investigadora tem o seu trabalho publicado em vários países, entre os quais Moçambique, Portugal, Espanha, Brasil, Senegal, Estado Unidos, Inglaterra, Argentina, Alemanha, Países Baixos e Colômbia.