A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) lança, esta quinta-feira, em conjunto com a Direção-Geral da Saúde e a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), o guia prático para a população “Como Recuperar Emocionalmente de Situações de Tempestade e Inundações?”.
Quando somos ameaçados podemos sentir medo e ter todas as nossas forças direcionadas para tentar sobreviver ou para salvar os nossos pertencentes. Numa fase posterior, “após o período de maior chuva, vento ou inundações, é natural sentirmos medo do que o futuro nos reserva, ficarmos em choque e sentirmo-nos incapazes de reagir. Podemos, também, sentir tristeza ou raiva e um sentimento de injustiça de vermos a nossa segurança e aquilo que construímos ao longo do tempo ter sido danificado ou levado pela água e/ou pela força do vento”.
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As inundações e as tempestades podem deixar marcas físicas e danificar os nossos pertences. De imediato, é natural sentirmos urgência em reparar rapidamente o que ficou destruído para evitar novas perdas. Essa urgência é compreensível, mas pode colocar a nossa segurança em risco, empurrando-nos para decisões arriscadas, como subir a telhados, mexer em estruturas instáveis ou em sistemas elétricos. É importante lembrar que proteger a vida (a nossa e a dos outros) deve vir sempre primeiro. Só depois será tempo de recuperar e reconstruir. Estas situações também podem deixar marcas emocionais.
O Guia Prático para a População frisa ainda que “cada pessoa reage à sua maneira e ao seu ritmo – não há o certo e o errado. São reações naturais as que virmos manifestarem-se”.
Recomendações Gerais
Aceitar o impacto emocional de inundações e tempestades. Sentir emoções intensas é uma parte da resposta natural a tempestades e inundações. Por muito dolorosas que sejam, para que diminuam, é preferível expressá-las, em vez de as ignorar ou evitar.
Falar sobre o que sentimos. Mesmo que não nos sintamos completamente preparados para falar sobre o que aconteceu, pode ser útil partilhar aquilo que estamos a sentir. Falar ajuda. Contudo, também é válido ficarmos em silêncio com alguém em quem confiamos.
Resistir à vontade de resolver tudo sozinhos e de uma vez. É compreensível querer “voltar ao normal”, mas esse sentimento de urgência pode aumentar o risco de acidentes. Foque-se em pequenas coisas de menor risco.
Gerir a visualização de notícias sobre inundações e tempestades. É importante mantermo-nos informados, mas estar sempre exposto às notícias ou imagens dos danos, destruição e sofrimento das pessoas pode causar-nos ainda mais sofrimento. Dê sempre preferência a fontes oficiais e, se a informação a que acede está a deixá-lo mais ansioso, reduza a visualização de notícias.
(Re)estabelecer comportamentos de autocuidado. Retomar ou investir no autocuidado permite-nos recuperar alguma normalidade, bem como a perceção de controlo e alguma sensação de segurança.
Manter a segurança depois das inundações ou tempestades. Os perigos podem continuar depois da chuva e do vento passarem. As crianças podem estar mais vulneráveis a acidentes quando há detritos, buracos escondidos por água, árvores caídas, cabos elétricos, vidros, lama, entre outros riscos.
Estar física e emocionalmente disponíveis. As crianças mais novas podem “precisar de colo” e contacto físico adicional. Outras crianças/jovens podem preferir dialogar, ou necessitar de mais tempo em família. A nossa atenção, conforto e encorajamento oferece-lhes segurança. Olhar diretamente nos olhos da criança/jovem e dizer-lhe que estamos com ela/e, pode ser suficiente para a acalmar.
Validar o que estão a sentir. Podemos incentivar as crianças e jovens a expressar como se sentem. Assegurar à criança/jovem que aquilo que sente é compreensível e natural. É importante relembrar que a culpa de tempestades/inundações não é da criança. Devemos evitar responder “não te preocupes” ou “já viste a sorte que tens?”, pois estas respostas podem fazer com que se sinta desvalorizada ou criticada.
Responder a dúvidas. Muitas crianças precisam de organizar a “história” do que aconteceu (antes, durante e depois). Pode ser útil oferecermo-nos para responder às suas questões sobre as inundações ou tempestades.
- Manter a previsibilidade e as rotinas habituais. Manter ou desenvolver novas rotinas para as refeições, as atividades e a hora de dormir pode ser muito securizante para a criança/jovem.