Região

Comportas são solução para água sair de Montemor-o-Velho

Notícias de Coimbra | 8 minutos atrás em 04-02-2026

O sistema de bombagem e comportas do Foja, a jusante de Montemor-o-Velho e povoação da Ereira, é a solução para fazer sair a água acumulada nos campos do Mondego, mas as debilidades crónicas de décadas complicam esse objetivo.

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De cada vez que o vale central enfrenta uma situação de cheia, nomeadamente na margem direita, as atenções de autarcas, agricultores, autoridades de Proteção Civil e ambientais e a população em geral viram-se para as comportas localizadas a oeste, na confluência da ribeira de Foja, com a vala da Ereira e o leito abandonado do Mondego.

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Do outro lado do sistema de cinco comportas corre o rio pelo canal principal: quando o caudal é imenso, como sucede por estes dias, as comportas mantêm-se encerradas, constituindo uma barreira às águas do Mondego, impedindo-as de entrar para os campos agrícolas; quando o caudal do rio desce e a diferença de altura favorece a água acumulada nos campos, as comportas abrem e a água sai, por gravidade, para o leito central do Mondego.

Existe ainda um sistema de bombagem, que pouca ou nenhuma ajuda consegue dar, até por ter uma capacidade máxima limitada de seis metros cúbicos por segundo (m3/s), quando só a água que ali chega oriunda dos campos do vale central (pela vala da Ereira e o leito abandonado do Mondego) ascende a 12 m3/s.

E o plano original do sistema hidráulico do Mondego previa a instalação de seis bombas para retirar água, o que nunca sucedeu.

Supostamente estão instaladas duas, mas há anos que só uma funciona, quando funciona: no final de janeiro, na altura em que o município de Montemor-o-Velho aprovou, por unanimidade, uma moção – proposta pelo vereador independente Décio Matias – a exigir investimento no sistema do Foja à Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a única bomba, lia-se no documento, estava em manutenção.

Assim, as autoridades de Proteção Civil e da APA – segundo várias fontes contactadas hoje pela Lusa – tenham estado, nos últimos dias, a tentar fazer funcionar a única bomba, o que ainda não foi conseguido, por falta de capacidade do gerador utilizado, já que a infraestrutura está sem energia elétrica, alegadamente devido aos estragos provocados pela depressão Kristin.

Restam as comportas, também de acionamento elétrico, com recurso ao referido gerador. Em nota de imprensa divulgada hoje, o município de Montemor-o-Velho informou que três comportas estão abertas, mas uma fonte dos representantes dos agricultores, que pediu para não ser identificada, argumentou que apenas uma das três estará a funcionar em pleno e apenas quando a maré o permite.

Se as comportas apenas conseguem abrir quando o caudal do rio é inferior, em altura, ao caudal da ribeira de Foja e afluentes junto à infraestrutura de bombagem, há ainda um problema conhecido há vários anos: mesmo encerradas, as comportas estão rotas por baixo e deixam passar para os campos a água do rio que deveriam suster.

A situação do Foja tem vindo a preocupar a população da Ereira, agora como noutras cheias, a última das quais em 2019. Em 2001, há 25 anos, apesar da altura de água ter sido cerca de dois metros superior ao que sucede agora, devido ao rebentamento das margens do Mondego em 12 locais, a solução encontrada para esvaziar os campos transformou-se numa espécie de mito urbano: o dique a jusante foi dinamitado, como juram alguns, ou rebentou por si mesmo, como alegam outros?.

Segundo as fontes, as comportas abriram pela terceira vez na manhã de hoje, tendo saído alguma água para o Mondego, mas pouca e muito devagarinho, já que a cota a que o rio estava era quase igual à cota dos cursos de água que ali afluem.

Na terça-feira, segundo as mesmas fontes, as comportas abriram duas vezes, e, embora a diferença de cotas fosse maior, não foi suficiente para anular a água que chegava aos campos, levando apenas a que a subida do nível da água tenha sido retardada no tempo.

Acresce que a água que tem vindo a subir, na última semana, junto à Ereira e nos campos agrícolas da freguesia de Maiorca (Figueira da Foz) – e que levou, por exemplo, ao corte da autoestrada A14 e da antiga Estrada Nacional 111 – deriva, em grande parte, dos quatro descarregadores que tiram até 800 m3/s – o equivalente a 800 mil litros por segundo – do canal principal do Mondego para o vale central.

Com a descida progressiva do caudal do rio nos últimos dias, fruto da gestão controlada – e muito aplaudida – que tem sido feita pela APA, os descarregadores deixaram de retirar água. Se e quando voltarem a fazê-lo, irão colocar ainda mais pressão na localidade de Ereira, de onde a água não consegue escoar e arrisca ficar vários meses nos campos, mantendo aquela povoação isolada.