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“Estamos isolados para Coimbra”: Moradores vivem com “coração nas mãos” por causa das cheias em Montemor-o-Velho
Os residentes de Formoselha, no concelho de Montemor-o-Velho, no distrito de Coimbra, estão preocupados com o risco de inundações para o Baixo Mondego, apesar de lembrarem que a situação já é habitual.
“Todos os anos estamos sempre contar com isto, por esta altura”, disse à agência Lusa Francisco Pescante, de 83 anos, que não esconde, no entanto, a preocupação com a possibilidade de inundações.
“Fizeram aí umas obras, mas foram mal acabadas”, atirou, quando se dirigia, de galochas e com um oleado no braço, para o local onde tem vários animais.
Ainda com dúvidas sobre se passaria pelo caminho habitual, devido ao alagamento de algumas zonas, Francisco contou que já morreram oito galinhas, patos e coelhos, e que as “cabras não foram atingidas” porque o filho fez “um curral, novo de cimento, e foi alteado perto de um metro”.
Em casa, Francisco Pescante já tomou medidas preventivas, como colocar bens mais elevados.
“Tem de ser todos os anos a mesma coisa, antes da chuva, das cheias, porque senão depois já não há salvação possível”, rematou.
Na mesma rua, que está a escassos metros do leito do rio Mondego, Vítor Manuel Andrade também se preveniu com os sacos de areia e retirou os frigoríficos, máquinas e bens essenciais do alcance das águas.
“Estou preocupadíssimo com a situação, visto que os avisos não são muito agradáveis”, admitiu.
Apesar de a depressão Kristin não ter causado danos na sua habitação, Vítor Manuel Andrade reconheceu que o mau tempo já está a afetar a sua vida, uma vez que tem de levar o filho à escola, na Granja do Ulmeiro, a cerca de três quilómetros, fazendo uma “volta um bocadinho esquisita”, e levar a esposa para Coimbra, e depois ir buscá-los.
“É um vai e vem. Uma situação um bocado complicada”, lamentou, face aos cortes nas vias mais rápidas em direção a Montemor-o-Velho e a Coimbra.
De acordo com Vítor Manuel Andrade, a situação vivida há quase uma semana está também a ter impactos psicológicos.
“Estamos sempre preocupados: eu levanto-me de madrugada, vou ver os canos. A água da garagem já me não preocupa muito, porque sei que está num nível mais baixo, o que me preocupa mais é a casa. Mas estou sempre preocupado e sempre com o coração nas mãos. E depois quando ouço os telejornais e as notícias, claro que ficamos todos muito preocupados, porque o tempo, segundo consta, não vai melhorar nos próximos dias e deixa-nos nervosos”, observou.
Segundo António Lopes Marques, de 85 anos, a situação em Formoselha “já é antiga”, apontando o rio Ega como “um grande problema”.
“O leito do Ega está mais baixo do que o do [rio] Mondego, evidentemente que as águas vêm e empancam”, descreveu.
À Lusa, o presidente da Junta de Freguesia de Santo Varão, Marcelo Ferreira, adiantou que a situação está calma e que as águas “estão a baixar”.
“Estamos isolados para Coimbra, só se passa pela Anobra, e para Montemor-o-Velho tem de se passar por Figueiró do Campo, Alfarelos, Marujal e Verride”, salientou.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 69 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.