Região

Especialista defende gestão local da bacia do Mondego

Notícias de Coimbra com Lusa | 5 horas atrás em 02-02-2026

A gestão da bacia do Mondego devia ser feita localmente, sob a égide das comunidades intermunicipais ou da Comissão de Coordenação (CCDRC), eventualmente com a criação de uma estrutura de missão, defendeu hoje a professora universitária Helena Freitas.

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Em declarações à agência Lusa, a propósito do risco de cheias no Baixo Mondego, nos municípios de Coimbra, Soure e Montemor-o-Velho, a cientista e coordenadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra (UC) frisou ainda que a situação hidrológica naquela região expõe, novamente, as fragilidades estruturais da obra hidroagrícola, que há muito estão identificadas e nunca foram solucionadas.

“Este sistema devia ter uma gestão local e bastante mais robusta. Espero que corra tudo bem, mas a situação de falta de obras é absolutamente inaceitável, não é possível fazer tudo de uma vez, mas, facilmente, já se devia ter inscrito algumas destas obras no PRR [Plano de Recuperação e Resiliência]”, afirmou Helena Freitas.

No seu entender, esta gestão local das bacias hidrográficas dos rios, concretamente a do Mondego, cujo curso corre integralmente na região Centro e, ao contrário de outras, não depende de Espanha, devia deixar de ser realizada centralmente, em Lisboa, e entregue a entidades regionais ou intermunicipais.

“Nós estamos cansados de falar nisto [da falta de intervenção na manutenção de infraestruturas] mas, se calhar, este é o momento de suscitar essa discussão, porque as pessoas estão atentas e percebem o que se passa. Agor,a estamos a pensar fazer, e bem, intervenções nos rios, na sua reabilitação e até na reflorestação. Se calhar, prioritário também devia ser a intervenção estrutural”, observou a docente da UC.

“No tempo da ‘troika’ resolveram centralizar tudo o que tinha a ver com recursos hídricos. Tínhamos a gestão por bacia [de rios], que, no caso português, era o que fazia sentido, porque nós vamos estar muito expostos a estes eventos extremos”, recordou.

Por outro lado, Helena Freitas argumentou que o país deixou de pensar nas soluções para o futuro, “o que é grave”.

“O que foi pensado há 30, 40 anos, se calhar pode ser atualizado para os tempos atuais, porque as tecnologias evoluíram e há novos desafios [nas infraestruturas hidráulicas, como a do Baixo Mondego]. Justifica-se claramente ter isto em cima da mesa e não andarmos sempre com paliativos”, alegou.

Numa publicação efetuada hoje na sua página pessoal da rede social Facebook, sobre o risco de cheias no Baixo Mondego, Helena Freitas escreveu que, ao longo das últimas décadas, “a elevação progressiva do leito do rio Mondego, sem uma intervenção equivalente nos seus tributários, aumentou a exposição das zonas baixas a inundações”.

“Esta realidade traduz-se numa dependência excessiva da gestão operacional das barragens a montante e da utilização controlada dos campos inundáveis, soluções que, embora relevantes, não substituem a necessidade de uma infraestrutura hidráulica plenamente concluída e funcional”.

Uma das obras que falta realizar, e que tem vindo a ser reclamada insistentemente por agricultores, autarcas e dirigentes de várias áreas, diz respeito à construção da barragem de Girabolhos, a montante da Aguieira, no município de Seia.

Na publicação, que disse à Lusa ter escrito “só para chamar a atenção de um problema que se mantém”, Helena Freitas notou que o atual episódio de perigo de cheia “não deve ser encarado como um evento excecional, mas antes como a confirmação de uma vulnerabilidade estrutural conhecida e reiterada: a ausência de conclusão do projeto hidráulico do Baixo Mondego”.

“No fundo, isto faz parte da impreparação do país, esta situação mantém-se, e não é resolvida”, sublinhou.