No Dia Mundial do Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, a Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) reforça a sensibilização da população portuguesa para o cancro do pulmão. Esta é a principal causa de morte por cancro, tanto em Portugal como a nível mundial, mas é também uma doença em que “a prevenção, o diagnóstico precoce e os avanços terapêuticos podem fazer uma diferença real na vida das pessoas”.
De acordo com as estimativas mais recentes do Global Cancer Observatory (GLOBOCAN 2022), em 2022 terão sido diagnosticados cerca de 5.400 novos casos de cancro do pulmão em Portugal, considerando ambos os sexos e todas as faixas etárias. Para Daniela Madama e Joana Catarata, da Comissão de Trabalho de Pneumologia Oncológica da SPP, “estes dados sublinham a magnitude do cancro do pulmão como um problema de saúde pública no nosso país e reforçam a urgência de medidas eficazes de prevenção, diagnóstico precoce e acesso equitativo a cuidados especializados, de modo a reduzir o impacto desta doença na população”.
Uma das principais razões apontadas para a elevada mortalidade associada ao cancro do pulmão é “a ausência de programas de rastreio populacional amplamente implementados em Portugal, o que contribui para diagnósticos tardios e limita as possibilidades de tratamento curativo”. As médicas pneumologistas salientam que o diagnóstico precoce é determinante no cancro do pulmão, uma vez que, “quando a doença é identificada em fases iniciais, existem opções terapêuticas com intenção curativa, como a cirurgia, associadas a melhores taxas de sobrevivência. A identificação precoce permite ainda tratamentos menos agressivos, melhor tolerados e mais eficazes”.
A elevada mortalidade é ainda agravada pelo facto de o cancro do pulmão ser “uma doença frequentemente silenciosa nas fases iniciais, sem sintomas específicos que alertem precocemente para a sua presença. Quando surgem manifestações clínicas, estas são muitas vezes inespecíficas ou já indicativas de doença avançada. Além disso, apresenta regularmente um comportamento biológico agressivo e uma elevada capacidade de disseminação precoce, principalmente nos doentes mais jovens”.
Apesar de os sintomas do cancro do pulmão poderem ser variados e inespecíficos, existem sinais de alerta que não devem ser ignorados, nomeadamente:
- Tosse persistente ou alteração do padrão habitual da tosse;
- Tosse com expetoração com evidência de sangue;
- Falta de ar ou agravamento progressivo da dispneia;
- Dor torácica persistente;
- Rouquidão;
- Perda de peso inexplicada, cansaço extremo ou infeções respiratórias recorrentes.
Quanto aos principais fatores de risco para o cancro do pulmão, o tabagismo é o responsável pela grande maioria dos casos, no entanto, esta “não é uma doença exclusiva dos fumadores, e pode surgir em pessoas sem historial tabágico”, destacam as especialistas. Outros fatores relevantes para o desenvolvimento de cancro do pulmão incluem:
- Exposição ao fumo passivo, que aumenta significativamente o risco em não fumadores;
- Poluição do ar, sobretudo em ambientes urbanos, hoje reconhecida como um fator carcinogénico;
- Exposição ocupacional a substâncias como asbesto, sílica, radão e outros agentes químicos;
- História familiar e fatores genéticos, que podem aumentar a suscetibilidade individual.
No que respeita ao tratamento, Daniela Madama e Joana Catarata salientam os “avanços muito significativos” registados nas últimas décadas. “A identificação de alterações moleculares específicas permitiu o desenvolvimento de terapias alvo, altamente eficazes em subgrupos de doentes. A imunoterapia revolucionou o tratamento de muitos casos, permitindo respostas duradouras e melhoria da sobrevivência. Paralelamente, houve progressos nas técnicas cirúrgicas, na radioterapia e no diagnóstico molecular, tornando os tratamentos mais personalizados e eficazes. Estes avanços demonstram que o prognóstico do cancro do pulmão está a mudar, embora o acesso equitativo continue a ser um desafio”.
Daniela Madama e Joana Catarata concluem que assinalar esta data “constitui uma oportunidade fundamental para sensibilizar a população para os fatores de risco, promover comportamentos preventivos e reforçar a necessidade de políticas públicas eficazes, nomeadamente no controlo do tabagismo e da poluição ambiental. Trata-se, igualmente, de uma oportunidade essencial para reforçar a importância da prevenção e da implementação do rastreio”.