A Ordem dos Médicos (OM) alertou hoje para a pouca atratividade do SNS, alegando que o recente concurso para a colocação de médicos de família apenas conseguiu captar 12 especialistas que estavam fora do serviço público.
“Os médicos que estão fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS) continuam a não se sentir atraídos por ele”, lamentou o bastonário Carlos Cortes comentando à Lusa os resultados do concurso de segunda época, que terminou com o preenchimento de apenas cerca de 50 das 142 vagas abertas para especialistas de medicina geral e familiar.
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Segundo Carlos Cortes, dos 57 novos especialistas que terminaram no final de 2025 a sua formação, cerca de dois terços ocuparam lugares disponibilizados neste concurso, mas, em relação aos médicos de família que estavam fora do SNS, apenas 12 foram colocados, o “que é muito pouco”.
“A verdade é que a atração que existia há uns anos tem-se esbatido muito nestes últimos anos e os médicos, cada vez mais, optam por outras soluções, como o setor privado, a prestação de serviços ou até a emigração”, alertou Carlos Cortes.
Para inverter essa situação, o bastonário defendeu que o “foco tem de ser nas condições adequadas” ao nível da carreira, da formação e de desenvolvimento de projetos para tornar o SNS atrativo, face a um setor privado que tem “apostado cada vez mais nos cuidados de saúde primários”.
Carlos Cortes salientou ainda que a OM já apresentou ao Governo um pacote de 25 medidas para aumentar a fixação e a atração de médicos para o SNS, no sentido de adaptá-lo à atual realidade do trabalho que é “muito diferente da que era há décadas”.
“O que constatámos é que parece não haver vontade do Ministério da Saúde de dar o impulso ao SNS para ser mais competitivo na atração desses médicos. Ao invés, a aposta do ministério tem sido nas situações de contingência”, referiu.
Ao nível das condições de trabalho, o pacote de 25 medidas preconiza horários “humanizados e flexíveis”, com escalas publicadas com antecedência mínima de quatro semanas, assim como o reforço da segurança e do bem-estar dos médicos, com medidas eficazes de prevenção e dissuasão da violência nos locais de trabalho.
Quanto à nova carreira, que deve iniciar-se logo no internato, a ordem defende que deve garantir um percurso previsível ao longo da vida profissional e ser transversal aos setores público, privado e social.
Outra das medidas previstas no pacote é a realização de concursos céleres, transparentes e calendarizados, tanto para o ingresso dos recém-especialistas, como para progressão nos diferentes patamares.
O documento avança também com a criação de incentivos para as áreas carenciadas, prevendo que os médicos que aceitem a colocação nesses locais beneficiem de um prémio inicial de instalação e de apoios adicionais pela permanência continuada.
Está ainda prevista a criação de pacotes de apoio logístico e social à instalação familiar, como creches, escolas e integração do cônjuge no mercado de trabalho, um modelo que “reconhece que a decisão de fixação depende tanto da qualidade de vida do médico como das condições oferecidas à sua família”.
Mais de 60% das vagas para Medicina Geral e Familiar (MGF) ficaram por preencher no concurso de segunda época, que terminou com a ocupação de 50 das 142 abertas, segundo dados a que a Lusa teve acesso.
Em 2025, no total dos dois concursos realizados para contratação de médicos recém-especialistas em MGF, foram ocupadas 281 vagas, o que permitiu a atribuição de médico de família a mais 435.550 utentes.
Segundo o portal da transparência do SNS, em novembro de 2025, estavam inscritos nos cuidados de saúde primários mais de 10,7 milhões de utentes, número que tem vindo a aumentar consistentemente desde março de 2024, e cerca de 1,5 milhões não tinham médico de família atribuído.
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