Um novo estudo científico sugere que o esquecimento das primeiras memórias da infância não é uma falha do cérebro humano, mas sim um mecanismo natural e essencial ao desenvolvimento.
A investigação mostra que as células microgliais — células do sistema imunitário presentes no cérebro — funcionam como verdadeiras “gestoras da memória”, apagando memórias precoces para dar lugar a novas aprendizagens.
A maioria das pessoas não consegue recordar acontecimentos ocorridos antes dos três anos de idade, um fenómeno conhecido como amnésia infantil. Durante décadas, os cientistas atribuíram este esquecimento à imaturidade do cérebro. No entanto, um estudo publicado esta terça-feira na revista PLOS Biology aponta para uma explicação diferente: as memórias são ativamente silenciadas pelas células microgliais.
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Estas células representam cerca de 10 a 15% das células do cérebro e têm como função podar sinapses — as ligações entre neurónios — durante o rápido desenvolvimento da infância, ajudando a refinar os circuitos cerebrais, pode ler-se no ZAP.
Para testar a teoria, investigadores do Trinity College Dublin estudaram ratinhos bebés, que tal como os humanos também apresentam amnésia infantil. Os animais foram treinados para associar um ambiente específico a um leve choque. Em condições normais, os ratinhos esqueciam a experiência poucos dias depois. No entanto, quando os cientistas inibiram a atividade da microglia com um antibiótico, os ratinhos mantiveram a memória.
Mesmo vários dias depois, os animais reagiam com medo ao serem colocados novamente no mesmo local, demonstrando que a memória não tinha sido apagada.
Os investigadores utilizaram ainda técnicas genéticas para tornar visíveis os neurónios responsáveis por armazenar essas memórias, conhecidos como engramas. Nos ratinhos com microglia ativa, esses engramas mostravam pouca atividade. Já nos animais tratados, os circuitos da memória permaneciam ativos, confirmando que as recordações não tinham desaparecido — apenas tinham sido silenciadas.
“A microglia pode ser considerada a gestora da memória no cérebro”, explicou Erika Stewart, uma das autoras do estudo, em comunicado. Segundo a investigadora, os resultados indicam que os mesmos mecanismos envolvidos na amnésia infantil podem estar relacionados com outras formas de esquecimento ao longo da vida.
Para os cientistas, esquecer é uma característica fundamental do funcionamento cerebral. “Cada vez mais vemos o esquecimento não como um defeito, mas como uma funcionalidade essencial”, sublinha Tomás Ryan, autor principal do estudo. O cérebro parece arquivar memórias antigas para permitir a adaptação e aprendizagem contínua.
As conclusões abrem novas portas para a compreensão da memória humana e poderão ter implicações no estudo de doenças neurológicas. Até lá, os investigadores tranquilizam: não se recordar do primeiro aniversário é apenas sinal de que o cérebro estava a fazer o seu trabalho.
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