Jovens entre os 10 e os 21 anos foram expostos ‘online’ a discursos de ódio, violência, informação sobre automutilação ou suicídio de forma involuntária, pois a maioria (61,1%) não procurou esses conteúdos, revela um estudo hoje divulgado.
“Há uma grande prevalência de exposição a experiências negativas, mas não é intencional. Nesta amostra representativa, 61,1% dos jovens nunca procuraram esse tipo de conteúdos e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados”, adiantou a investigadora Mariana Rodrigues, da Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).
A professora explica que o estudo Exposição a ‘cyberbullying’ e outros conteúdos prejudiciais online entre jovens em Portugal é o primeiro feito em Portugal “com amostra representativa dos jovens portugueses dos dez aos 21 anos” (foram entrevistados 2.071 pessoas), que juntou a dimensão do cyberbullying a outras exposições perigosas.
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No documento, a que a Lusa teve acesso, os inquiridos dizem que “a exposição a conteúdos prejudiciais online foi comum nos últimos seis meses”.
Testemunharam discurso de ódio 47,2% dos jovens e 45,3% visualizaram material violento, ao passo que 39,7% viram conteúdos que retratavam consumo de drogas.
Informação sobre automutilação chegou a 36,6% dos jovens.
Material que promovia hábitos alimentares não saudáveis chegaram a 35,3% e 33% visualizaram conteúdos sexualizados.
Um em cada sete jovens (14,9%) “foram expostos a conteúdos que descreviam formas de cometer suicídio”, descreve a publicação.
Entre estes jovens, 61,1% “referiram nunca ter procurado ativamente esse tipo de conteúdos” e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados/as com o que viram”, acrescenta o documento.
Quanto ao ‘cyberbullying’, 21,9% dos jovens receberam comentários online rudes ou ofensivos e 14% viram circular rumores sobre si.
Perto de 12% “experienciaram assédio online ou sentiram-se incomodados”.
Disseram que alguém partilhou informação privada sobre eles na Internet 10,8% dos jovens.
De acordo com o estudo, “jovens mais velhos e com estatuto socioeconómico mais baixo apresentam níveis mais elevados de exposição ao ‘cyberbullying’ e a outras formas de conteúdos prejudiciais online”.
As raparigas “são mais frequentemente expostas a material que promove comportamentos alimentares não saudáveis, enquanto os rapazes são mais expostos a conteúdos sexualizados”.
Os jovens mais expostos/as a conteúdos prejudiciais online e a ‘cyberbullying’ “tendem a apresentar pior saúde mental e bem-estar psicológico, incluindo mais pensamentos suicidas, sentimentos de vergonha mais intensos e menor satisfação com a vida”.
Contudo, “a exposição a conteúdos prejudiciais ‘online’ não esteve diretamente associada a sentimentos de solidão nem ao desempenho escolar após o controlo do apoio familiar, escolar e dos pares”.
Ou seja, “o apoio de amigos/as, a comunicação familiar positiva e ambientes escolares inclusivos protegem o bem-estar e o desempenho escolar”.
Ainda assim, a vivência do ‘cyberbullying’ “esteve associada a maior consumo de álcool e pior qualidade do sono”.
Tanto o ‘cyberbullying’ como a exposição a outros conteúdos prejudiciais online estão associados a pior ajustamento psicossocial, mas “o cyberbullying emerge como um risco mais proximal e relacional, com ligações mais fortes a resultados psicológicos graves e a comportamentos relacionados com a saúde”.
Em contrapartida, a exposição geral reflete padrões mais amplos de vulnerabilidade, enquanto a proteção está consistentemente enraizada nas relações com pares, família e escola.
A investigação indicou também que, no tempo de lazer, “os jovens passam mais tempo diariamente online do que offline”.
A navegação nas redes sociais “continua a ser a atividade online preferida, com 46,4% a referirem passar mais de três horas por dia nestas plataformas”.
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