As verduras pré-lavadas e embaladas, como alface ou espinafres prontos a consumir, são frequentemente escolhidas pela conveniência e pela ideia de uma alimentação mais saudável. No entanto, especialistas em segurança alimentar alertam que estes produtos estão entre os mais associados a riscos de contaminação por bactérias perigosas.
Segundo Darin Detwiler, professor de política alimentar na Northeastern University e autor do livro Food Safety: Past, Present, and Predictions, as verduras embaladas continuam a ser “um dos itens mais arriscados nos supermercados”, devido aos múltiplos pontos de contaminação ao longo da cadeia de abastecimento. O especialista afirma evitar este tipo de produtos pelo risco de infeções graves causadas por bactérias como E. coli, listeria ou salmonela.
Estudos anteriores mostram que as saladas embaladas têm estado na origem de vários surtos de doenças transmitidas por alimentos, alguns dos quais resultaram em hospitalizações, insuficiência renal e até mortes. Um relatório publicado em abril de 2024 no Journal of Foodborne Illness indica que as hortaliças folhosas são responsáveis por até 9,2% das doenças alimentares causadas por agentes patogénicos conhecidos nos Estados Unidos, representando mais de dois milhões de casos por ano.
PUBLICIDADE
Os especialistas explicam que a contaminação pode acontecer ainda na fase de produção agrícola. Água de rega contaminada, contacto com animais selvagens ou domésticos, solo e até o ar podem introduzir patógenos nas culturas. O risco aumenta quando os campos agrícolas se encontram próximos de explorações pecuárias intensivas.
Durante a colheita e o transporte, a manipulação humana, os equipamentos utilizados e a água empregue nos processos pós-colheita podem também contribuir para a contaminação, explica Kimberly Baker, responsável pelo programa de segurança alimentar da Universidade Clemson, pode ler-se no HuffPost.
Nas unidades de processamento, o perigo multiplica-se. As verduras embaladas raramente provêm de um único campo, sendo misturadas folhas de diferentes explorações agrícolas. “Uma única folha contaminada pode afetar milhares de embalagens distribuídas por várias regiões”, alerta Detwiler.
As folhas são lavadas em grandes tanques industriais, um processo que, embora eficiente do ponto de vista logístico, facilita a disseminação de bactérias. Segundo Rosemary Trout, da Universidade Drexel, os alimentos de origem vegetal estão, paradoxalmente, mais associados a surtos de doenças alimentares do que produtos de origem animal.
Manter as verduras refrigeradas é essencial, mas não elimina os patógenos. A refrigeração apenas abranda o crescimento bacteriano, não o destrói. Alterações de temperatura durante o transporte ou armazenamento podem ainda favorecer a proliferação de bactérias.
Contrariamente ao que muitos consumidores pensam, lavar em casa verduras já pré-lavadas não aumenta a segurança. Pelo contrário, pode introduzir novos contaminantes através da bancada, do lava-loiça ou dos utensílios. Além disso, bactérias como E. coli e salmonela aderem às folhas através de biofilmes e não são removidas com água.
Como estas verduras são normalmente consumidas cruas, o risco mantém-se, uma vez que o calor é o único método eficaz para eliminar patógenos.
Apesar dos riscos, os especialistas reconhecem que muitos consumidores continuarão a optar por estes produtos pela praticidade. Nesse caso, aconselham a verificar eventuais recolhas de produtos (recalls), respeitar rigorosamente as datas de validade, evitar embalagens com excesso de humidade ou folhas viscosas e manter sempre as verduras refrigeradas a temperaturas iguais ou inferiores a 4 °C.
Uma alternativa considerada mais segura é comprar alfaces inteiras ou molhos de espinafres, que apresentam menor área de superfície exposta à contaminação. Estes devem ser lavados em casa, em água fria, antes do consumo.
As autoridades norte-americanas têm reforçado as medidas de controlo, mas os especialistas sublinham que o risco não é meramente teórico: os surtos continuam a ocorrer, lembrando que a conveniência nem sempre anda de mãos dadas com a segurança alimentar.
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE