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“Não começou na Bastilha”: O crime de 1,6 milhões que derrubou uma rainha

Notícias de Coimbra | 3 horas atrás em 25-01-2026

Em 1785, na corte de Luís XVI de França, ocorreu um sórdido incidente que se tornou um dos maiores escândalos políticos de todos os tempos, conhecido como “O Caso do Colar de Diamantes”.

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Para se entender este famoso escândalo, é necessário olhar para o rosto da ingenuidade: o Cardeal de Rohan. Membro de uma das linhagens mais nobres do reino, Rohan possuía tudo, desde riqueza e títulos a grandes influências; porém, estes luxos não apagavam o seu maior desejo: o favor da Rainha Maria Antonieta. Devido a conflitos criados pela sua família, o Cardeal vivia num exílio político e social dentro da corte de Versalhes, e o seu maior desejo — um desejo quase obsessivo — era recuperar o prestígio e alcançar o cargo de primeiro-ministro. Rohan estava disposto a tudo, e esta ambição tornou-o no alvo ideal para uma golpista astuta.

Neste cenário de vulnerabilidade surge Jeanne de Valois-Saint-Rémy, autoproclamada Condessa de La Motte. Nobre de linhagem, mas caída na miséria, Jeanne possuía uma astúcia que superava a sua fortuna. Ao perceber a obsessão de Rohan, a golpista teceu uma teia de mentiras magistral: convenceu o Cardeal de que se tornara a amiga mais íntima e confidente da Rainha.

A aplicação deste golpe foi quase cirúrgica. Os pormenores da mentira eram minuciosos, ao ponto de serem entregues ao Cardeal cartas com o selo real, onde Maria Antonieta confessava perdoá-lo se ele servisse de intermediário para adquirir um objeto valioso que desejava muito, mas que o Rei não lhe permitia comprar: um colar de 647 diamantes. Iludido e desesperado, Rohan aceitou.

A armadilha foi selada com uma encenação teatral nos jardins de Versalhes. Jeanne contratou uma sósia da soberana para um encontro fugaz na penumbra, onde o Cardeal acreditou receber o perdão real. Convencido de que esta missão secreta seria o teste final para a sua reabilitação política, Rohan aceitou ser o intermediário da compra. O seu papel era simples, mas fatal: assinar o contrato com os joalheiros e garantir a entrega da jóia, acreditando que, ao satisfazer este capricho oculto da Rainha, compraria finalmente o seu lugar ao sol.

O contrato com os joalheiros Boehmer e Bassenge foi assinado a 25 de janeiro de 1785, onde Rohan se comprometeu a pagar o valor de 1,6 milhões de libras. Por muito bem planeado que este golpe fosse, continha lacunas: a assinatura falsa da Rainha era “Marie-Antoinette de France”, mas a realeza não assinava com o nome do país. Cego pela ambição, o Cardeal assinou o documento, contraindo uma dívida enorme. Dias depois, recebeu o colar e entregou-o a um suposto mensageiro da Rainha, que desapareceu de imediato com a jóia para a desmontar e vender no mercado negro de Londres.

O escândalo rebentou em agosto, quando a primeira prestação falhou e os joalheiros cobraram a dívida à verdadeira Maria Antonieta. A reação do Rei Luís XVI foi desastrosa: mandou prender o Cardeal em público, transformando um crime de burla num espetáculo político. Embora o tribunal tenha declarado a Rainha inocente, o povo, já fustigado pela fome, nunca acreditou na sua palavra. O colar de diamantes, que a soberana nunca chegou a tocar, tornou-se o símbolo da futilidade de Versalhes e o rastilho que faltava para a Revolução Francesa. Como diria Napoleão anos mais tarde, a Revolução não começou na Bastilha, mas sim no “Caso do Colar”.