Universidade
Estudo de Coimbra revela que pessoas com estilo de vida saudável são as que mais usam suplementos alimentares
Pessoas com estilo de vida mais saudável, que praticam exercício físico e que procuram uma dieta equilibrada são as que mais recorrem a suplementos alimentares, conclui tese de doutoramento realizada na Universidade de Coimbra.
A tese, da autoria de Maria João Campos, realizada na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) e defendida em dezembro, procurou perceber os hábitos de consumo de suplementos alimentares pela população portuguesa e quem os procura, tendo realizado um inquérito em que participaram 1.122 pessoas.
Face ao elevado número de respostas por profissionais de saúde, os inquiridos foram divididos em dois grupos: entre profissionais e não profissionais daquela área.
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Em declarações à agência Lusa, a autora notou que, entre os inquiridos que não eram profissionais de saúde, quem tenha um muito bom conhecimento nutricional tem 2,41 vezes maior probabilidade de consumir suplementos alimentares, se praticar desporto 1,62 vezes e se praticar uma dieta saudável 1,41 vezes.
O inquérito conclui ainda que 47% das pessoas que responderam ao questionário consumiram suplementos alimentares no último ano (61% para profissionais de saúde).
Segundo Maria João Campos, o consumo de suplementos alimentares por pessoas “que têm já hábitos de saúde e de estilo de vida saudável” acaba por ser um “contrassenso”.
“Os suplementos alimentares são alimentos. Não são produtos de saúde, não são medicamentos, são géneros alimentícios com características especiais e que servem para colmatar as deficiências nutricionais. Portanto, quem come pior, à partida, precisaria mais da ingestão de suplementos alimentares, o que não acontece”, constatou.
As pessoas que mais consomem suplementos alimentares “têm outros hábitos interessantes, nomeadamente consomem mais alimentos saudáveis e fazem mais refeições ao longo do dia”, notou a também docente convidada da FFUC, com formação como nutricionista e farmacêutica.
O inquérito indica ainda uma diversidade de quem recomenda ou prescreve os suplementos, como é o caso de profissionais de atividade física.
“Não acho que eles devam recomendar suplementos alimentares como eu não recomendo tipos de treino específicos quando estou a exercer nutrição clínica”, disse Maria João Campos.
A tendência de aumento de consumo de suplementos, associada a maiores preocupações com o bem-estar, pode levar a um consumo pouco informado, notou.
“Um profissional de atividade física não tem um conhecimento amplo da medicação que as pessoas poderão estar a fazer e sobre as interações que pode haver do suplemento com o medicamento”, disse, notando que há algumas preocupações de saúde pública não apenas do consumo de produtos de qualidade, mas de possíveis interações.
Maria João Campos dá um exemplo: “Uma pessoa que esteja a tomar uma aspirina para prevenir a coagulação do sangue não deve tomar, ao mesmo tempo, ómega-3, porque pode aumentar o risco de hemorragia caso a pessoa faça um corte ou tenha um acidente”.
No inquérito, é também concluída que a recomendação do médico para consumir suplementos alimentares diminui a probabilidade do seu consumo.
“A razão mais relevante poderá ser por questões económicas. Uma pessoa, quando vai levantar uma receita à farmácia com medicamentos e suplementos – e o suplemento é muito mais caro – pode perguntar ao farmacêutico o que não precisa de tomar obrigatoriamente e o farmacêutico irá apontar para o suplemento”, notou.
Apesar de poder ser recomendado o consumo de suplementos para suprir défices relacionados com contexto, dieta ou problemas de saúde, Maria João Campos salientou que a absorção nutricional primordial deve ser feita a partir de alimentos.
“Aquilo que nós ingerimos, em termos nutricionais, tem que ser sobretudo a partir da alimentação e, por várias razões: porque as matrizes alimentares são muito mais ricas, há sinergias associadas aos nutrientes que alguns alimentos têm e aumentam a sua absorção”, explicou.
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