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Da lã à papa: Mantas que contam a história da Serra da Estrela

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 7 horas atrás em 09-01-2026

Imagem: Aldeias da Montanha/ Facebook

O cobertor de papa, também conhecido de forma criativa como “cobertor de Papa”, é uma peça artesanal tradicional da região da Serra da Estrela, cuja produção remonta ao século XVIII.

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Este cobertor, feito à mão a partir da lã churra de ovelhas mondegueiras, distingue-se pelo seu pêlo branco comprido, peso, densidade e impermeabilidade, características que tornaram estas mantas indispensáveis para os pastores da serra, protegendo-os do frio, da chuva e até dos lobos.

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A tradição da indústria da lã marcou especialmente o triângulo Trinta, Meios e Corujeira, no distrito da Guarda, incluindo Maçainhas, onde surgiram os primeiros cobertores. Trinta foi pioneira em eletrificação na região e chegou a contar com sete fábricas a laborar. Hoje, a ligação à lã mantém-se viva com as Jornadas da Lã, que acontecem em junho, durante a tosquia dos rebanhos.

Em Meios, o Museu de Tecelagem, instalado numa antiga fábrica de cobertores de papa (ativa entre 1954 e os anos 80), mostra aos visitantes todo o processo de fabrico. Cada manta é fiada, tecida em teares manuais e feltrada com água e terra (a papa), sendo depois esticada ao sol para secagem. No pico da produção, eram fabricados até 48 cobertores por dia, cada tecelão responsável por seis ou sete unidades.

Os cobertores de papa apresentam padrões e cores tradicionais: branco simples, branco com listas, manta lobeira ou espanhola, manta de pastor, cobertor bordado à mão e cobertor homogéneo colorido. Cada variação reflete séculos de design popular português, pode ler-se no site Aldeias da Montanha.

Apesar de terem quase desaparecido com a chegada de fibras sintéticas e produção em massa, o cobertor de papa foi revitalizado pela Escola de Artes e Ofícios de Maçainhas desde 2008, com a produção retomada em 2011. Em 2014, os cobertores tornaram-se marca registada, e em 2015 surgiu a Associação Genuíno Cobertor de Papa, responsável por garantir a autenticidade e a continuidade da tradição.

A associação mantém todo o processo artesanal, promove exposições, recebe turistas, estudantes e forma novos artesãos, mantendo viva a memória e a qualidade do design tradicional português. Como destaca o projeto A Vida Portuguesa, resgatar estas peças para o presente permite valorizá-las não só como objetos utilitários, mas também como símbolos culturais e narrativos da história do território.

O cobertor de papa não é apenas uma manta: é tradição, memória e arte, trazendo o passado da Serra da Estrela para os dias de hoje, em diálogo com novas funções e contextos de consumo.

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