Saúde

O seu recibo está a envenená-lo

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 1 dia atrás em 08-01-2026

Imagem: Pexels

Um simples recibo pode representar um risco maior do que imaginamos. Durante décadas, o papel térmico utilizado em recibos de lojas, supermercados e restaurantes dependeu de uma substância química chamada bisfenol A (BPA), conhecida por interferir nos hormonas e associada a problemas reprodutivos, obesidade e até cancro.

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Embora a União Europeia tenha reforçado a legislação contra o BPA, muitas empresas recorreram a alternativas como o bisfenol S (BPS), uma molécula com efeitos tóxicos muito semelhantes.

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Agora, um estudo inovador liderado pelos investigadores Tom Nelis e Manon Rolland desenvolveu uma alternativa mais segura e sustentável: um papel térmico feito a partir de lignina lavada — um polímero extraído da madeira e de derivados de açúcar — que mantém a funcionalidade dos recibos sem prejudicar os hormonas humanos.

O papel térmico não é como o papel comum. Ele é revestido com uma camada química que contém tanto o corante como um “revelador de cor”. Quando aquecido pela impressora, o revelador reage com o corante, tornando a impressão visível.

Substituir o BPA e o BPS exigiu encontrar uma molécula suficientemente ácida para provocar a mudança de cor mas estável o suficiente para não escurecer antes da impressão. A solução veio da lignina, normalmente descartada pela indústria papeleira devido à sua cor escura.

Usando um método chamado Fracionamento Sequencial Assistido por Aldeído (SAAF), os investigadores conseguiram “lavar” a lignina, tornando-a bege, clara o suficiente para imprimir logótipos, códigos de barras e texto com boa legibilidade.

Além disso, o novo papel térmico utiliza um sensibilizador à base de açúcar, chamado diformilxilose (DFX), substituindo substâncias poluentes tradicionalmente usadas e tornando todo o processo biodegradável e seguro para o ambiente.

Um único recibo pode conter até 35 mg de BPA, que é absorvido pela pele, especialmente se as mãos estiverem húmidas ou tiverem restos de álcool em gel. Os novos polímeros de lignina, por serem moléculas grandes, não atravessam facilmente a pele e apresentam atividade estrogénica 100 a 1000 vezes menor que o BPA, tornando-os muito mais seguros.

Além de mais saudável, o papel à base de lignina é também mais barato do que os equivalentes com BPA ou BPS. Estima-se que o subproduto lignina possa ser vendido por 0,60 a 0,94 dólares por quilograma, comparado com os 1,50 a 2 dólares do bisfenol.

Os investigadores afirmam que a inovação poderá acelerar a transição global para recibos mais seguros, embora a implementação em larga escala ainda dependa de testes industriais e regulamentação.

Para já, sempre que pegar num recibo, ainda poderá estar em contacto com BPA ou BPS. Mas graças a esta pesquisa publicada na revista Science Advances (2025), o futuro do papel térmico pode tornar-se finalmente seguro e sustentável.

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