Receber um diagnóstico de cancro levanta muitas questões, e uma das preocupações mais frequentes é o impacto da doença e dos tratamentos na fertilidade. Será que ter cancro provoca infertilidade? A oncologista do IPO Lisboa, Teresa Bruno, e o médico e professor da FMUP, Paulo Santos, explicam os fatores de risco e como é possível preservar o potencial reprodutivo.
“Nem todos os tipos de cancro provocam infertilidade”, esclarece Teresa Bruno. No entanto, alguns tumores podem afetar a capacidade de ter filhos, direta ou indiretamente.
PUBLICIDADE
A infertilidade associada à doença oncológica pode surgir pelo próprio tumor, quando atinge órgãos do sistema reprodutivo, ou como consequência dos tratamentos, incluindo quimioterapia, radioterapia, terapias hormonais e cirurgias.
A remoção cirúrgica de órgãos reprodutores — como útero, ovários, testículos ou próstata — compromete diretamente a fertilidade. Já tratamentos como quimioterapia e radioterapia podem danificar permanentemente os ovários, testículos ou gónadas, reduzindo ou anulando a produção de óvulos e espermatozoides.
Por exemplo, uma mulher com cancro do colo do útero submetida a radioterapia pélvica pode ter os ovários afetados, enquanto homens com cancro do testículo podem ver comprometida a produção de espermatozoides após quimioterapia.
Terapias hormonais utilizadas em alguns cancros da mama ou da próstata podem também inibir temporária ou permanentemente a função reprodutiva, sublinha Teresa Bruno.
“O impacto varia de pessoa para pessoa e nem sempre a infertilidade ou subfertilidade são permanentes”, reforça a oncologista. Paulo Santos acrescenta que os pacientes são informados antecipadamente sobre os riscos, permitindo-lhes optar por medidas de preservação da fertilidade antes de iniciarem o tratamento, como a recolha de óvulos, espermatozoides ou tecido gonadal, lê-se no Polígrafo.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) confirma que a infertilidade pode ser uma consequência dos tratamentos oncológicos, mas destaca que há possibilidade de preservação da fertilidade, dependendo da idade, sexo, maturação física e vontade do paciente.
O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) também garante que pessoas submetidas a tratamentos citotóxicos, como quimioterapia ou radioterapia, podem conservar ovócitos, espermatozoides ou tecidos reprodutivos para uso futuro.
O Relatório de Atividades dos Centros de PMA indica que a doença oncológica representou 34,4% dos atos de preservação de gâmetas/tecido gonadal em Portugal em 2021. Nos homens, a principal causa para criopreservação foram doenças oncológicas (21,3%), enquanto nas mulheres a doença surge em segundo lugar (12,2%).
Nos hospitais do SNS, a doença oncológica foi responsável por 67,5% dos atos de criopreservação registados em 2021, sendo 41,2% de espermatozoides e 24,4% de ovócitos preservados devido à doença oncológica.
Os especialistas sublinham que nem todo o cancro compromete a fertilidade, mas que os pacientes devem ser informados e acompanhados quanto às opções de preservação reprodutiva, de modo a manter a possibilidade de ter filhos no futuro, mesmo após tratamentos oncológicos agressivos.
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE