Justiça

73,9% das pessoas apoiadas pela APAV foram vítimas de violência doméstica

Notícias de Coimbra com Lusa | 2 horas atrás em 19-02-2026

 Quase três em cada quatro pessoas ajudadas pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima em 2025 eram vítimas de violência doméstica, revela a associação, segundo a qual este mantém-se o crime mais reportado, com mais de 26 mil queixas.

As estatísticas da APAV relativas a 2025, a que a Lusa teve acesso, mostram que a instituição apoiou 18.549 pessoas, relativamente às quais foram reportados 35.341 crimes, 73,9% dos quais violência doméstica.

Em declarações à Lusa, a assessora técnica da direção da APAV Carla Ferreira apontou que este é “sem dúvida” o crime que “leva a dianteira”, tendo em conta “os mais de 26 mil crimes reportados”.

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“Há um peso de cerca de três em cada quatro vítimas que nós apoiamos eram vítimas de violência doméstica”, salientou.

Destacou, por outro lado, que houve outros crimes reportados que tiveram “aumentos significativos”, como “as situações de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, que aumentaram 87% entre 2024 e 2025”.

Mencionou também os casos de burla, que aumentaram 48% ou os crimes sexuais contra crianças e jovens que cresceram 25% entre 2024 e 2025.

De acordo com Carla Ferreira, a APAV registou um aumento de 25% nos casos de perseguição denunciados e de 14% nos crimes de ameaça e de coação, havendo preponderância de situações ocorridas no contexto online, nomeadamente nos crimes sexuais contra crianças.

Lembrou que a APAV é responsável, desde 2019, pela gestão da linha Internet Segura, através da qual “entram também muitos pedidos de ajuda para as situações de violência em contexto online, particularmente as situações de burla ou as situações de violência sexual”.

Uma realidade que a responsável entende que deve ser acompanhada de medidas não só de combate, mas também de mecanismos preventivos.

No que diz respeito à primeira, Carla Ferreira diz que Portugal tem uma legislação “bastante completa em termos de penalização dos fenómenos criminais”, mas salientou que uma coisa é a lei, outra a sua aplicação.

Deu como exemplo os vários mecanismos existentes para as vítimas de crime sexuais ou de violência doméstica que nem sempre se aplicam às demais vítimas de uma forma clara e imediata.

“Ainda há um caminho a fazer. Aliás, lançamos esses dados estatísticos a propósito do dia 22 de fevereiro, que é o Dia Europeu da Vítima de Crime, que também pretende lembrar, precisamente, que todas as vítimas de crime devem ter uma voz e todas as vítimas de crime têm direitos”, defendeu.

Relativamente à prevenção, apontou que existem várias iniciativas, tanto de órgãos de polícia criminal como da própria APAV, mas “regra geral são pouco uniformizadas”.

Carla Ferreira salientou que desde 2015 há um estatuto de vítima previsto na lei, mas lembrou que “a APAV é a única organização que presta apoio a vítimas de todas as formas de crime e de violência” em todo o país.

“O que significa que, ao contrário, por exemplo, da violência doméstica, em que existem muitas outras respostas, as demais vítimas não têm a mesma atenção”, alertou.

Admitiu que a violência doméstica é “quase endémica” na sociedade portuguesa, o que justifica a quantidade de respostas, mas defendeu que as outras vítimas não podem ficar esquecidas, apontando que o que importa não é o crime em si, mas o impacto que ele teve na vida da vítima.

De acordo com a responsável, a APAV tem constatado uma certa mutação nos crimes, apontando que “atrás de um teclado é fácil praticar crimes de discriminação” ou falsificar uma identidade.

Especificamente em relação ao contexto online, Carla Ferreira acredita que “se calhar há mesmo de facto mais crime”, tendo em conta o “escalar de algum tipo de conteúdos, de discursos de normalização de algumas formas de violência”.