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33 139 utentes do distrito de Coimbra sobrevivem sem médico de família!

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O número de pessoas sem médico de família em Portugal voltou a ultrapassar a barreira de um milhão em junho de 2021. Desde 2016 que este valor não era tão elevado. 149 269 desses excluidos vivem na Região Centro.

Contactado pelo Notícias de Coimbra, o Ministério da Saúde informa que só no concelho de Coimbra existem 12 033 inscritos sem médico de família atribuído, num total de 152 061 pessoas inscritas. Cerca de oito por cento da população registada na “capital da saúde” não tem médico de família, de acordo com os dados governamentais referentes ao mês de junho.

No distrito de Coimbra em 436 440 utentes inscritos, 33 139 cidadãos não têm um médico de família atribuído, adianta o Governo.

A Administração Regional de Saúde do Centro (ARS C), presidida por Rosa Reis Marques, é composta pelos distritos de Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu, com um total de 1 808 493 utentes, dos quais 149 269 estão sem médico de família.

No Centro de Saúde Fernão de Magalhães, um dos mais “afamados” de Coimbra,  composto pelas unidades funcionais UCSP Fernão de Magalhães e USF Coimbra Centro, estão inscritas 26 067 pessoas, existindo 1 803 sem direito a médico.

Os dados divulgados pela ARS C ao Notícias de Coimbra são em muito diferentes dos que nos foram facultados pelo Ministério da Saúde.

No concelho de Coimbra a entidade de saúde do Centro dá conta que existem 4 852 utentes sem médico de família. O Ministério de Marta Temido informa que são 12 033 nessa condição no município. Uma diferença de menos 7 181 utentes comparando os dados  da Administração com os do Ministério.

Também no distrito de Coimbra esse valor é muito díspar, a administração regional informa que são 5 977 os utentes sem médico de família, o Ministério de Marta Temido conta que são 33 139 pessoas. Comparando os dados, a ARS C não contabiliza mais de 27 mil pessoas do distrito de Coimbra sem médico de família.

Perante estes dados contraditórios, o Notícias de Coimbra contactou Rosa Reis Marques, presidente da ARS C, para ela explicar a disparidade dos números apresentados. A resposta prestada foi que se encontra de férias.

Carlos Cortes, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos (SRCOM), explica ao Notícias de Coimbra que o problema da falta de médicos de família é um problema que tem vindo a ser constante e que está a ser agora acentuado. Entende que a falta de médicos de família se deve essencialmente a dois fatores, por um lado à falta de recursos humanos nos Centros de Saúde e por outro lado à deslocação destes profissionais para os centros de vacinação covid-19 ou para o ‘trace covid’, ou seja, para o acompanhamento de pessoas positivas à covid-19, dos seus familiares, ou de casos suspeitos.

Quanto à falta de recursos humanos, Carlos Cortes entende que mesmo que todos os anos se estejam a formar entre 400 a 500 médicos de família, muitos são também aqueles que se estão a reformar. A cada médico de família é atribuído entre 1550 a 1800 utentes, pelo que a ausência de apenas um médico causa um impacto significativo.

Mas a falta de recursos não se prende apenas com os médicos de família. “Há também falta de enfermeiros, e outros profissionais de saúde. Mas sobretudo faltam administrativos. Acabam por ser os médicos a fazer o trabalho administrativo, em vez de estarem a atender os seus utentes”, afirma o presidente da SRCOM.

A pandemia gerou um acentuar da falta de recursos nos Centros de Saúde. “Os médicos de família que deviam estar preocupados com a retoma da atividade, têm de fazer o ‘trace covid’, estar presentes nos centros de vacinação e realizar a vacinação ao domicílio. No fundo têm de ser médicos, mas não médicos de família”. Carlos Cortes entende que a solução do desvio de médicos de família para os centros de vacinação passaria pela contratação de outros médicos menos diferenciados.

Questionado pelo Notícias de Coimbra sobre a falta de médicos registada quando todos os anos se formam centenas de médicos de família em Portugal, Carlos Cortes entende que a questão se prende com a falta de oportunidades.

“Temos jovens médicos que não ficam porque não lhes é dada oportunidade. Médicos que fazem a sua formação num Centro de Saúde e depois esse Centro de Saúde não abre vagas. Não há vagas na região Centro como devia haver. Não há médicos de família para os utentes, mas também não abrem vagas”. Entende que o Ministério da Saúde tem de contratar médicos de família, e tem de contratar outros médicos para as funções para as quais os médicos de família estão a ser desviados.

Acrescenta que existe também entre os profissionais desta classe um sentimento de falta de reconhecimento do seu trabalho, do papel do médico de família. Este sentimento faz com médicos de família optem por abandonar o Serviço Nacional de Saúde.

“Falta dar condições para o trabalho destes médicos. Não falo em condições financeiras. Falo em condições para tratar os seus doentes. Condições físicas de instalações, condições técnicas e recursos humanos administrativos que são muito importantes no auxílio ao trabalho dos médicos”.

Um utente sem médico de família atribuído está numa situação de fragilidade, adianta Carlos Cortes. A estes utentes resta-lhes recorrer em caso de necessidade a uma consulta aberta ou às urgências hospitalares, mas são doentes que dificilmente vão ter um acompanhamento, afirma.

O presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Nuno Jacinto, em declarações à Antena 1 em julho afirmava igualmente que o aumento do número de portugueses sem médico de família é uma tendência que resulta da falta de investimento nos cuidados de saúde primários.

Nuno Jacinto acrescenta que estes utentes sem médico de família e com necessidades médicas recorrem às urgências ou a uma consulta aguda mas acabam por pressionar ainda mais os profissionais já com a sua lista de utentes atribuída, o que gera sobretudo em período de pandemia um sistema de saúde sobrecarregado e com dificuldades na resposta a estes utentes. 

O preenchimento das 459 vagas para a contratação de médicos de família ficou aquém das expectativas e registou mais de 130 desistências, denunciou hoje a Federação Nacional dos Médicos (FNAM), que responsabilizou o Governo pela situação.

Num comunicado enviado às redações, com base em dados fornecidos pelos próprios candidatos ao concurso nacional, a FNAM sustentou que o défice na fixação de médicos de família no Serviço Nacional de Saúde (SNS) terá deixado “cerca de 200 mil utentes” sem um profissional dedicado ao seu acompanhamento.

A falta de médicos de família é especialmente visível na região de Lisboa e Vale do Tejo, que nem conseguiu preencher metade das 230 vagas disponíveis, mas estendeu-se também às regiões do Alentejo (26 vagas) e do Algarve (28), ambas com uma taxa de preenchimento inferior a 60%. Em sentido inverso, o Norte alcançou 100% de preenchimento das 88 vagas disponíveis e a região Centro conseguiu ocupar 85% das vagas.

Um terço das vagas de um concurso que pretendia contratar 459 médicos de medicina geral e familiar ficou por preencher, o que para o secretário de Estado Adjunto e da Saúde é “motivo de preocupação”.

“Estas 459 vagas tiveram uma adesão na ordem dos 63 a 65%, o que significa que, ainda assim, um terço das vagas ficou por preencher, o que é para nós, obviamente, um motivo de preocupação e de reflexão, de criar cada vez mais motivos de atratividade”, afirmou hoje António Lacerda Sales.

“Em 2015, estávamos como 1,3 milhões de pessoas sem médico de família. Depois, já no meio do ano de 2020, estávamos com cerca de 750 mil pessoas. Agora, reconhecidamente, piorámos cerca de 200 mil pessoas e estamos com cerca de 950 mil pessoas, mais um menos, sem médico de família. Por isso, temos de fazer um esforço ao nível os cuidados de saúde primários para melhorarmos esta cobertura”, disse.

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