O conhecimento do rio e do funcionamento da obra hidráulica do Mondego são condições essenciais para que as autoridades possam gerir por antecipação uma nova cheia na região, defendeu um especialista em Proteção Civil.
Em declarações à agência Lusa, Paulo Palrilha, comandante do Batalhão de Sapadores Bombeiros de Coimbra e autor de uma tese de mestrado sobre as causas e consequências das cheias no Baixo Mondego em 2001 – faz na terça-feira 25 anos – revisitou os acontecimentos da altura e o conhecimento adquirido desde então, vincando que se tratou de uma das maiores catástrofes naturais ocorridas em Portugal.
“Foi uma cheia numa obra hidráulica que tinha, nos seus objetivos, precisamente, a proteção de pessoas e bens contra cheias. E a obra não funcionou”, enfatizou.
Durante uma semana no terreno, e, posteriormente, com mais dois ou três meses de um período de pós-emergência, entre burocracias diversas, relatórios ou a entrega de verbas de sobrevivência às populações atingidas (400 famílias, mais de um milhar de pessoas, ficaram desalojadas, especialmente nos concelhos de Coimbra e Montemor-o-Velho), o responsável da Proteção Civil quis perceber o que tinha corrido mal.
“Refleti muito, a obra era gerida, na altura, pelo Instituto da Água [integrado, em 2013, na Agência Portuguesa do Ambiente e, depois, extinto] e eu queria perceber, exatamente, o que tinha corrido mal. Porque é que os diques tinham rebentado, porque é que o alerta vermelho para cheias estava nos 2.000 metros cúbicos por segundo (m3/s) na Ponte Açude [o débito máximo naquela infraestrutura em Coimbra, equivalente a dois milhões de litros de água a cada segundo] e o primeiro dique rebentou aos 1.700 m3/s”, recordou.
Esse trabalho de recolha de dados haveria de culminar, em 2004, na tese “As cheias no Baixo Mondego no ano hidrológico 2000/2001 – Avaliação e perceção ao risco de inundação”, documento que não se limitou a contar a história dos acontecimentos, mas apontou, também, medidas efetivas e novos procedimentos, garantindo ao comandante dos Bombeiros Sapadores “um à-vontade muito maior em situação de cheia para a gerir com alguma antecedência”.
Contou que imediatamente após as cheias de 27 e 28 de janeiro de 2001 (cujas consequências diretas prolongaram-se pelos dias seguintes, com a altura de água a chegar aos três metros, em alguns locais), o plano de emergência distrital de Coimbra foi alterado “para valores muito mais baixos” de débitos de água na Ponte Açude e o alerta laranja passou a prever a possibilidade de cheias aos 1.600 m3/s, “para que houvesse uma monitorização muito mais atempada e um acompanhamento muito maior”.
No entanto, Paulo Palrilha vincou que quer o rebentamento dos diques, em 12 locais no total, quer a gestão da barragem da Aguieira, não foram, na sua opinião, a causa primeira das cheias nos 12 mil hectares agrícolas do Baixo Mondego em 2001, que inundaram campos e povoações.
Essa, defendeu, decorreu da precipitação “anormal, muito intensa e acumulada durante três meses seguidos” até finais de janeiro, que culminou “num período de chuva intensa em cima da própria barragem”, já sobrecarregada, e perto da cota máxima, a ter de fazer descargas de emergência.
“E tínhamos poucos meios, lembro-me de ter dado um alerta, e os alertas eram por fax, a comunicação era muito mais demorada e as pessoas não percebiam o que estava a acontecer, havia quem pensasse que a barragem tinha desmoronado. E os descarregadores [que deviam dirigir, do canal central para os campos, a água em excesso] não funcionaram ou funcionaram mal, basta um rebentamento num dique para a obra ficar totalmente descontrolada”, evidenciou.
Rio abaixo, depois de Coimbra, as cheias recorrentes no Baixo Mondego eram já coisa do passado, ou assim as pessoas pensavam – especialmente após a inauguração, em 1981, da Aguieira e da Ponte Açude e da regularização do rio, iniciada em 1978 e inaugurada em 1992, com a construção de um novo leito de 13 km, a que se juntaram 23 km de alargamento e aprofundamento e diques nas duas margens entre Coimbra e a Figueira da Foz, um investimento equivalente, na altura, a 39 milhões de euros.
“Tivemos de nos precaver e hoje sabemos que para haver cheias no Baixo Mondego, há, primeiro, inundações no Cabouco [lugar localizado junto ao rio Ceira, a cerca de 5 km do local onde este afluente da margem esquerda entra no Mondego, a montante de Coimbra], esse é o primeiro sinal”, constatou.
“Depois, é monitorizar na Ponte Açude a quantidade de água que passa, saber se os diques estão a descarregar ou não, e pôr no terreno agentes de proteção civil, bombeiros e autoridade policial para monitorizar toda a obra hidráulica, avisar e apoiar as populações”, explicou Paulo Palrilha.