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Portugal

A família levou portuguesa à Grécia onde escreveu o primeiro dicionário de grego-português

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Quando a portuguesa Maria da Piedade Maniatoglou escreveu o primeiro dicionário de grego-português, em 1990, os gregos pouco conheciam Portugal, o que a crise que afetou os dois países viria a alterar, tendo a autora escrito entretanto outras obras.

Esta estudiosa da língua e cultura gregas, de 65 anos, vive em Atenas há mais de 40 anos, país que abraçou por razões familiares, já que casou com um cidadão grego.

Em entrevista à agência Lusa, contou que se sente em casa na Grécia, onde os filhos e os netos aumentaram a família, embora não esqueça Portugal e reconheça que as saudades são muitas.

Era forte o motivo que a levou a viver na Grécia e por isso aprender a língua revelou-se uma tarefa relativamente fácil.

“No meu caso particular, eu tive alguma facilidade em aprender, não só porque tinha escolhido grego clássico no liceu, como tinha umas pequenas luzes do que era o alfabeto grego”, disse.

Mas mais que isso: “Tinha razões particulares e estava empenhada em aprender a língua para comunicar”.

Maria da Piedade Maniatoglou começou a fazer traduções e, por dominar o grego com relativa segurança, aceitou o desafio de escrever o primeiro dicionário de Grego-Português e de Português-Grego, uma edição de bolso com poucas entradas.

“Há imensas palavras de origem grega em português”, afirmou, ressalvando que, em termos de caraterísticas de vocabulário, há muita coisa a unir estas duas línguas, apesar do português ser uma língua de origem latina e o grego ser de uma família linguística à parte. “Ambas são línguas indo-europeias, mas a gramática é bastante diferente”, referiu.

Nos anos 90 do século XX, os poucos portugueses que viviam na Grécia não procuravam um dicionário. A maioria, como hoje, emigrara para o “berço da civilização ocidental” por razões familiares e era com a família que aprendia as palavras mais comuns.

Nessa altura, Portugal era um país desconhecido para os gregos, o que se foi alterando, conforme assistiu Maria da Piedade Maniatoglou.

“Hoje em dia toda a gente conhece Portugal. Houve uma grande aproximação, tanto no conhecimento da realidade portuguesa, do aspeto económico, político”, disse.

E acrescentou: “Foram países muito falados na altura da crise [2008]. Os dois tinham grandes problemas e as soluções portuguesas eram ventiladas. Aqui, eram discutidas da mesma maneira que em Portugal”.

Um dicionário da língua grega e portuguesa visava, então, tornar desnecessária a utilização de um dicionário intermédio e a obra foi “bem aceite”.

“Mais tarde, fui eu até que propus um dicionário de maiores dimensões, em formato normal (não de bolso)”, contou. Os dois volumes surgiram em 2013, 2014, já obedecendo ao novo acordo ortográfico.

Do trabalho de um ano resultaram dois volumes, com 1.700 páginas, 60.000 palavras no volume grego-português e 70.000 no português-grego.

Sobre o público a que estes livros se destinam, Maria da Piedade Maniatoglou acredita que mudou desde que elaborou os pioneiros dicionários de bolso, pois atualmente os portugueses que emigram para a Grécia, em missões ou para trabalhar em empresas, têm conhecimento de inglês, com o qual comunicam.

Ainda assim, os que vão viver para o país por razões familiares contam agora com este instrumento de comunicação, disse.

A reação a estes dicionários foi muito positiva. “Dos contactos que tive com portugueses aqui e com identidades, foi bastante favorável e tem sido de alguma utilidade”.

A tradutora sublinhou o crescente interesse da Grécia em relação a Portugal, nomeadamente a nível cultural, como demonstra a divulgação de obras literárias de escritores como Fernando Pessoa ou José Saramago.

“Há sempre um artista português que participa num festival de jazz que decorre todos os anos aqui em Atenas e outro tipo de eventos culturais que vão dando a conhecer ao público grego o que somos culturalmente. O fado tem uma dimensão muito vasta, os gregos gostam de ouvir e sabem quem é Amália Rodrigues”, exemplificou.

Motivos que ajudam a matar as saudades que Maria da Piedade Maniatoglou tem de Portugal, que “nunca deixaram de estar presentes”.

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