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Praia de Mira: Paulo transforma penas de gaivota numa homenagem ao pai que conta a história de uma família
Paulo cresceu a ver o pai, pescador, trabalhar canas de bambu, cordas e penas de gaivota. Depois da sua morte, decidiu continuar aquilo que aprendeu apenas a observar. Hoje, leva esse legado à Mostra Gastronómica da Região da Gândara.
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Há memórias que não desaparecem quando alguém parte. Na Praia de Mira, uma delas continua viva pelas mãos de Paulo, que decidiu recuperar a arte que durante anos viu o pai fazer em casa.
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O resultado pode ser encontrado na Mostra Gastronómica da Região da Gândara, junto à Barrinha, através do Artesanato do Xoxo — nome que era a alcunha do pai e que Paulo escolheu precisamente para manter viva a sua memória.
“O meu nome é Paulo, sou aqui da Praia de Mira e faço este artesanato um bocado em homenagem ao meu pai”, explica.
O pai era pescador e, nos períodos em que regressava a casa, ocupava parte do tempo a fazer pequenos trabalhos artesanais. Paulo acompanhava tudo de perto, mas nunca recebeu propriamente aulas.
“Eu sempre acompanhei durante anos ele a fazer isto em casa, a trabalhar os cabos, as canas de bambu, para proteger aqui as penas, para elas não saltarem”, recorda.
Quando o pai morreu, decidiu pegar no legado que tinha ficado em casa.
“Ele partiu, infelizmente partiu, e eu… continuei. E gosto de fazer isto. Faço por gosto.”
Entre as peças mais características estão os abanadores feitos com penas de gaivota recolhidas junto ao mar. A matéria-prima é encontrada na areia, numa combinação entre reaproveitamento e homenagem à paisagem costeira.
“É um abanador de penas de gaivotas. Apanhadas ali na beira-mar”, conta Paulo. “Dá para fazer duas coisas. Uma, limpamos a praia e a outra fazemos estes exemplares espetaculares.”
A técnica é baseada naquilo que viu o pai fazer ao longo dos anos. As penas são trabalhadas e protegidas com canas de bambu, enquanto os cabos podem manter o aspeto natural, numa opção que Paulo prefere por considerar que dá às peças um carácter mais rústico.
“Eu gosto mais assim, ao natural. (…) Gosto assim dos cabos, mais ao natural, fica mais rústico.”
A história por trás do artesanato está profundamente ligada à vida de pescador do pai de Paulo.
Começou na pesca do bacalhau, atividade que implicava longos períodos longe de casa. “Eram meses”, recorda o filho.
Mais tarde, regressou e dedicou grande parte da vida à pesca da sardinha, primeiro em Aveiro e, posteriormente, na Figueira da Foz.
Quando estava em terra, aproveitava o tempo para tratar dos animais, trabalhar um pedaço de terra, caminhar junto ao mar e recolher materiais que depois utilizava no artesanato.
“Fazia as caminhadas dele à beira-mar, apanhava as penas, ia ao pinhal, apanhava a madeira. Aproveitava e trazia-me umas canazinhas da Índia, umas canas de bambu, e ia-se entretendo nos dias dele”, conta Paulo.
A mãe também faz parte desta história. Enquanto o pai esteve ligado à pesca, era ela quem ficava em casa e cuidava dos animais. Hoje, ajuda também na produção de algumas peças, nomeadamente bases feitas com corda para colocar tachos sobre a mesa.
“A minha mãe, com os tempos dela mais livres, ela vai fazendo, e também gosta de fazer, foi uma coisa que ela sempre fez, com ele”, explica.
Paulo faz questão de que a mãe esteja presente neste projeto de homenagem ao marido. Durante a inauguração da mostra, chamou-a para estar consigo.
“Eu estou aqui graças à minha mãe, mas também homenageando o meu pai, que foi a figura que trouxe isto para a nossa casa e que fez do artesanato ali uma imagem viva em casa”, afirma.
O artesanato entretanto cresceu e Paulo começou a criar novas peças inspiradas na terra onde nasceu.
Entre os trabalhos mais recentes estão pequenos ímanes pintados à mão que representam alguns dos símbolos mais conhecidos da Praia de Mira: os palheiros, a capela, os barcos da Arte Xávega, a Casa Gandareza, a Nossa Senhora da Conceição e a estátua dos pescadores.
“Tentei ir buscar as peças, os monumentos ou aquelas imagens mais características da nossa terra e fui criando em pequenos ímanes”, explica.
Há ainda pequenos ímanes especificamente dedicados ao pai.
“Fiz aqueles ímanzinhos de homenagem a ele”, diz.
O projeto não nasceu, porém, com uma preocupação comercial. Para Paulo, o valor está sobretudo no significado.
“É mais, não pela questão monetária, mas é uma questão de homenagem e eu gosto daquilo que faço.”
Apesar de ter aprendido essencialmente através da observação, Paulo foi aperfeiçoando a técnica com o tempo. E há quem, entre os visitantes mais velhos, reconheça imediatamente o trabalho e lhe dê sugestões.
“As pessoas mais velhas passam e acham um gesto muito bonito e dizem, olha, faz assim, ou puxa mais para este lado, ou puxa mais para aquele”, conta.
A resposta é simples: “Eu faço como via. A partir daqui vou sempre melhorando e, se estiver bom, para mim está ótimo.”
Se o pai ainda estivesse vivo, talvez também tivesse algumas críticas a fazer. Paulo imagina que poderia ouvir reparos sobre a forma como coloca as penas ou trabalha os cabos.
“Ou arranja melhor isso, ou penteia mais as penas para elas ficarem mais lindas”, brinca.
Há, no entanto, uma diferença que Paulo mantém: enquanto o pai gostava de pintar os cabos, inclusive com cores associadas a clubes, o filho prefere deixá-los ao natural.
Hoje, o Artesanato do Xoxo é, assim, mais do que uma banca numa mostra gastronómica. É uma forma de manter uma história familiar ligada ao mar, à pesca e à Praia de Mira.
E, sobretudo, de garantir que aquilo que um homem fazia nos tempos livres, depois de regressar da pesca, não desapareceu com a sua partida.
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