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Miranda do Corvo prepara projeto pioneiro para produzir as “árvores portuguesas”

Notícias de Coimbra | 1 mês atrás em 04-09-2026

Semide voltou a ser ponto de encontro para quem vive da terra, produz, cria e ajuda a manter viva uma atividade que atravessa gerações.

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A Feira da Árvore abriu portas esta sexta-feira, 4 de setembro, com uma edição que junta produtores, viveiristas, comunidade e cultura, mas também serviu para colocar em cima da mesa um dos maiores desafios do território: a gestão da floresta depois da tempestade Kristin e a necessidade de preparar o futuro.

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Na abertura do certame, o presidente da União de Freguesias de Semide e Rio Vide, Joaquim Silva, destacou o peso económico e identitário da atividade viveirista, lembrando uma tradição que atravessa décadas e que continua a garantir emprego e a fixar pessoas no território.

A feira pretende também dar espaço aos artistas e criadores locais, numa edição que, pela primeira vez sob a liderança do atual executivo da freguesia, procura juntar a componente económica à cultural.

Para o presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo, José Miguel Ferreira, este é um evento que já provou resistir às mudanças políticas e aos diferentes executivos.

“A Feira da Árvore continua aqui a dar passos na senda do sucesso”, afirmou, sublinhando que o certame tem conseguido manter-se ao longo dos anos e continuar a valorizar os produtores locais e os viveiristas.

Na entrevista ao Notícias de Coimbra, o autarca reconheceu que esta primeira edição acompanhada pelo atual executivo municipal acabou também por ser uma surpresa positiva, perante a adesão registada.

A dimensão da atividade vai muito além da própria feira. Segundo o presidente da Câmara, cerca de 80% da produção nacional de citrinos terá origem nesta união de freguesias, antes de seguir para diferentes regiões do país. Num território com reduzida capacidade industrial, considera, esta é uma força económica com um impacto silencioso, mas decisivo para muitas famílias.

Foi também esse conhecimento acumulado pelos produtores locais que levou o município a desenhar um projeto que pretende aproveitar a experiência dos viveiristas para responder a um problema mais abrangente: a falta de produção de espécies autóctones em Portugal. A intenção passa por criar, com financiamento privado, o que o autarca descreveu como um primeiro laboratório de árvores autóctones em Portugal, destinado a produzir espécies capazes de responder às necessidades de reflorestação.

A ideia recebeu já o apoio do secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, que garantiu a disponibilidade do ICNF para acompanhar o projeto e colocar conhecimento técnico e científico ao serviço da iniciativa.

“Precisamos de espécies autóctones, precisamos de todas”, afirmou, defendendo ao mesmo tempo uma floresta capaz de responder às necessidades ambientais, mas também económicas.

O secretário de Estado aproveitou a presença em Semide para apresentar a estratégia do Governo para os próximos 25 anos, assente em quatro grandes pilares: criar valor, aumentar a resiliência, resolver problemas relacionados com a propriedade e simplificar procedimentos.

A gestão da floresta em territórios de minifúndio, com propriedades muitas vezes sem proprietário conhecido ou sem interlocutor identificável, foi apontada como um dos maiores obstáculos à intervenção no terreno.

Rui Ladeira destacou também os apoios destinados aos municípios, proprietários e entidades ligadas à gestão florestal, lembrando que foram disponibilizados recursos para reforçar meios e acelerar intervenções após a tempestade Kristin. E Miranda do Corvo está entre os municípios que vão beneficiar desse reforço: o concelho deverá receber um trator equipado com braço, destinado a trabalhos de gestão florestal e criação de faixas de combustível.

O equipamento integra um programa de reforço do parque de máquinas que prevê a distribuição de mais de 200 tratores pelos municípios. O objetivo, segundo o secretário de Estado, é permitir uma resposta mais rápida às necessidades do território e aumentar a capacidade local de intervenção.

A tempestade continua, aliás, muito presente no discurso dos responsáveis locais. O presidente da Câmara recordou a dimensão dos danos provocados pela Kristin, afirmando que Miranda do Corvo esteve entre os territórios mais afetados e que ainda existem marcas visíveis do temporal. Ao mesmo tempo, reconheceu o apoio recebido do Governo na recuperação dos acessos florestais e deixou uma palavra de reconhecimento ao secretário de Estado pela resposta dada nos meses seguintes.

“Foi o primeiro governante, pouco mais de um mês depois de atendermos o Estado, que de forma muito pragmática, com pouca conversa e muita ação, disse o que é que tínhamos pela frente”, afirmou o autarca, referindo-se ao apoio disponibilizado para a recuperação da rede viária florestal.

Na sua intervenção, o presidente da União de Freguesias recordou também como o mau tempo obrigou a alterar prioridades e a concentrar recursos no que era mais urgente. Apesar disso, garantiu que a freguesia não parou, avançando com diferentes intervenções e mantendo a aposta na prevenção e segurança do território.

Veja a fotogaleria da abertura do certame.

É também nessa lógica que a Feira da Árvore procura afirmar-se: não apenas como um certame ligado à produção, mas como um espaço de valorização de uma comunidade e de discussão sobre o futuro de um território profundamente ligado à floresta e à agricultura.

Para Rui Ladeira, marcar presença em Semide é também reconhecer quem continua a trabalhar a terra e a manter viva uma atividade essencial. “Estar aqui hoje é de respeito, é de reconhecimento, mas sobretudo também de futuro e de proximidade”, afirmou ao Notícias de Coimbra.

Entre os viveiristas que dão nome à feira, os projetos de reflorestação que começam a ganhar forma e o novo equipamento que deverá chegar ao município, a edição deste ano termina com uma certeza: em Miranda do Corvo, falar de árvores continua a ser falar de economia, de floresta, de famílias e, cada vez mais, da capacidade de reconstruir e preparar o território para os próximos anos.

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