Região

João de Jesus foi pescador, comerciante, marinheiro, correu o mundo e agora transforma memórias da Praia de Mira em miniaturas

NOTÍCIAS DE COIMBRA | 4 semanas atrás em 11-09-2026

Foi pescador, emigrante, marinheiro e comerciante. Hoje, já reformado, dedica-se a construir miniaturas de barcos, capelas e outras peças que contam histórias da terra onde nasceu e cresceu. João de Jesus é um dos artesãos presentes na Mostra Gastronómica da Região da Gândara, na Praia de Mira.

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Entre pequenos barcos de madeira, miniaturas de palheiros, capelas e outras peças inspiradas na vida junto ao mar, há uma história de vida que atravessa várias décadas.

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João de Jesus foi pescador na pesca da sardinha e do bacalhau, passou pela Marinha Mercante Holandesa, viveu como emigrante e acabou por regressar à sua terra, onde trabalhou durante 28 anos na restauração.

“Eu fui pescador, fui imigrante e fui comerciante”, conta.

Começou por conhecer de perto a dureza da vida no mar. “Fui pescador aqui na pesca da sardinha e do bacalhau”, recorda. Mais tarde, depois de cumprir o serviço militar, partiu para a Marinha Mercante Holandesa.

A experiência levou-o a viajar pelo mundo e a passar longos períodos longe de casa. “No mar não, há muito tempo fora do nosso país”, explica, lembrando as viagens e as estadias nos portos.

Mas, apesar das viagens, era a terra natal que continuava a falar mais alto.

“Porque eu gostava muito da minha terra. Adorava a minha terra”, afirma. Ao passar pela região, conta que ficava com “uma dor no coração”, sobretudo quando avistava a capela da terra a partir das rotas marítimas.

Até que decidiu que queria regressar.

“Opa, a minha terra! Não quero ser mais imigrante!”, recorda, numa frase que resume a decisão de abandonar a vida de emigrante e voltar às suas origens.

De regresso, entrou no setor da restauração, onde permaneceu durante 28 anos. Depois veio a reforma e, com ela, mais tempo para uma paixão que já o acompanhava desde criança: construir pequenas representações daquilo que conhecia.

“Pequenininhos normalmente fazíamos isto de barro. Não havia outros meios”, explica.

Com o passar dos anos, começou a trabalhar a madeira e a reproduzir diferentes embarcações. Primeiro, os barcos que conhecia da pesca e, mais tarde, outras embarcações que faziam parte das suas memórias.

Entre as peças que apresenta está a representação de uma embarcação ligada à pesca do bacalhau.

João explica que os pescadores passavam muitas horas fora do barco principal, em pequenas embarcações, pescando à linha.

“Eles pescavam a linha e estavam 12 horas fora do barco mesmo”, conta.

Para essas longas jornadas, levavam consigo comida simples. “Era um pãozinho, umas azeitonas, um bocadinho de […] e uma garrafa de água”, recorda.

E se a pesca não corresse bem, não havia alternativa. “Se não pescasse, tinha que ir a gramar doze horas lá fora”, afirma.

São precisamente estas memórias que hoje tenta preservar através do artesanato.

Além dos barcos, João constrói pequenas casas, capelas e palheiros inspirados na Praia de Mira.

E há uma particularidade no material que utiliza: grande parte vem de madeira que iria acabar no lixo.

“Aquelas madeiras dos caixotes da fruta, das caixinhas de alimento”, explica. “Tudo reciclagem.”

O artesão aproveita ainda objetos que encontra na praia. “Às vezes vou à praia, encontro essas coisitas… Olha, se pode fazer qualquer coisita, pode fazer”, diz.

A criatividade acaba por transformar pedaços aparentemente sem utilidade em pequenas peças que representam a região.

Também se dedica à pintura, uma atividade que desenvolve na Universidade Sénior, onde reproduz lugares e símbolos ligados à sua terra.

Entre as peças há também representações religiosas, nomeadamente de Nossa Senhora da Conceição, padroeira que tem um significado especial para João.

“Nossa Senhora da Conceição, que é a nossa padroeira”, explica.

A imagem transporta-o novamente para os tempos em que andava no mar e via a capela da terra à distância.

“Aquilo por nós é sagrado, mexe com a gente”, confessa.

É também por isso que o seu artesanato não é apenas uma atividade para ocupar o tempo da reforma.

“É um prazer”, afirma, sobretudo quando tem oportunidade de levar estas histórias às escolas e mostrar às crianças algumas das tradições da região.

João é também uma presença antiga na Mostra Gastronómica da Região da Gândara.

“Eu sou dos primeiros a começar isto”, conta, garantindo que participa no evento desde os primeiros tempos.

Mais do que vender peças, procura levar consigo um pedaço da terra onde nasceu.

E deixa uma preocupação para o futuro: “Não quero […] ser o último dessa geração”, afirma.

A frase ganha particular força perante aquilo que está exposto na banca. Cada barco, cada palheiro ou cada pequena capela representa não apenas uma peça de artesanato, mas também uma memória de uma época em que o mar, a pesca e a vida comunitária tinham um peso muito maior no quotidiano da população.

Para João, preservar essas memórias passa também por continuar a fazê-las com as próprias mãos.

E, quando fala da Praia de Mira, a ligação à terra volta a aparecer.

“A praia de Mira tem muitas coisas bonitas”, diz, destacando a gastronomia, a simpatia das pessoas e a relação com o mar.

Recorda ainda uma tradição antiga em que o peixe assado era quase uma oferta a quem visitava a praia: “O peixe assado não tinha dono.”

Era comum colocar um fogareiro na rua e partilhar sardinhas ou carapaus com quem passava.

Hoje, essa tradição já pertence sobretudo às memórias de quem a viveu. Mas, na banca de João, muitas dessas histórias continuam de pé — em madeira, tinta e pequenas embarcações que ajudam a contar a história da Praia de Mira.

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