O stress laboral e o burnout são fenómenos cada vez mais prevalentes no contexto empresarial, com um impacto direto e significativo na saúde dos colaboradores e na produtividade das organizações. Em 2025, um estudo revelou que 61% dos portugueses admitem sentir-se exaustos ou em risco de burnout, destacando o stress laboral como uma das principais preocupações.
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O burnout é definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na 11.ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma síndrome resultante do stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso. Caracteriza-se por um estado de exaustão física, emocional e mental, que se manifesta através de sentimentos de esgotamento de energia, aumento da distância mental do trabalho ou sentimentos de negativismo relacionados com o trabalho, e redução da eficácia profissional.
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Em Portugal, a realidade é preocupante. Além dos 61% em risco de burnout, 36% dos portugueses enfrentam problemas de saúde mental, embora apenas 3% procurem terapia, segundo o STADA Health Report 2025. Este mesmo relatório indica que as mulheres (71%) são mais propensas a sentir esgotamento do que os homens (60%), e os jovens com menos de 34 anos (75%) são mais afetados do que os mais velhos (53% com 55 anos ou mais). As principais causas apontadas para os problemas de saúde mental incluem preocupações financeiras (32%), stress no trabalho (26%) e solidão (10%).
As consequências do burnout e do stress laboral vão além do bem-estar individual, gerando custos avultados para as empresas. A nível global, a OMS estima que 12 mil milhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e ansiedade, o que representa um custo de 1 trilião de dólares por ano em produtividade perdida.
Em Portugal, o cenário não é diferente. Embora os dados mais recentes de 2025 do Global Talent Barometer 2025 da ManpowerGroup indiquem que 49% dos trabalhadores enfrentam níveis de stress diários moderados a elevados, estudos anteriores já alertavam para o impacto financeiro. Em 2022, o absentismo custou 1,8 mil milhões de euros às empresas em Portugal, e o presentismo (estar presente no trabalho, mas com produtividade reduzida) teve um custo de 3,5 mil milhões de euros, totalizando 5,3 mil milhões de euros em perdas devido a problemas de saúde mental e stress.
O equilíbrio entre a vida pessoal e profissional tornou-se uma prioridade inegável para os colaboradores. O estudo Workmonitor – The Voice of Employees 2024, da Randstad, que inquiriu 27 mil trabalhadores em 35 geografias, revelou que 93% dos inquiridos consideram o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional fundamental na sua vida. Em Portugal, 60% dos trabalhadores afirmam que não aceitariam um emprego que considerassem que iria afetar o seu equilíbrio de vida, e 39% chegariam a deixar um emprego por esse motivo.
Esta valorização reflete-se na procura por flexibilidade no horário de trabalho (81%) e apoio à saúde mental (83%) como fatores cruciais na escolha de um emprego. O teletrabalho, por exemplo, tem sido visto como um facilitador, com 71% dos portugueses a destacarem efeitos positivos como melhor equilíbrio vida-pessoal, maior produtividade e menos stress.
Estratégias essenciais para promover este equilíbrio incluem: estabelecimento de horários fixos de término: Ajuda a criar limites claros entre a vida profissional e pessoal; evitar reuniões consecutivas e desnecessárias: Otimiza o tempo e reduz a fadiga; organização do tempo de trabalho: Permite uma gestão mais eficiente das tarefas e menos sobrecarga; fomentar a desconexão digital: Incentivar os colaboradores a desligarem-se do trabalho fora do horário.
A promoção da saúde mental nas empresas assume, nos dias de hoje, um papel basilar não só de responsabilidade social, mas também como um componente estratégico vital para a retenção de talento e a eficiência organizacional. Criar um ambiente onde os colaboradores se sintam seguros para expor vulnerabilidades sem medo de represálias é crucial.
Investir em programas de saúde mental e bem-estar no local de trabalho demonstra um Retorno Sobre o Investimento (ROI) significativo. Estudos indicam que, para cada dólar investido em saúde mental, é possível obter um retorno de até 4 dólares em produtividade, retenção e eficiência. Um estudo da Deloitte, por exemplo, encontrou um retorno mediano de 1,62 dólares para cada dólar investido em iniciativas de saúde mental .
Medidas concretas que as empresas podem implementar incluem: disponibilidade de consultas de psicologia ou programas de assistência a colaboradores (PAC): Oferece apoio profissional direto; workshops sobre literacia em saúde mental e gestão de stress: Capacita os colaboradores com ferramentas e conhecimentos; oferta de flexibilidade horária: Permite aos colaboradores gerir melhor o seu tempo e compromissos pessoais; promoção de “dias de saúde mental”: Reconhece a importância do descanso e da recuperação mental.
E ainda formação de lideranças: Preparar gestores para identificar sinais de stress e burnout e para apoiar as suas equipas; criação de uma cultura de apoio: Reduz o estigma associado aos problemas de saúde mental e encoraja a procura de ajuda.
O stress laboral e o burnout são desafios complexos que exigem uma abordagem multifacetada por parte das empresas. Ao investir proativamente na saúde mental e no bem-estar dos seus colaboradores, as organizações não só cumprem a sua responsabilidade social, mas também colhem benefícios tangíveis em termos de produtividade, retenção de talento e um ambiente de trabalho mais saudável e resiliente. A saúde mental no trabalho não é um custo, mas sim um investimento estratégico com um retorno inegável.
OPINIÃO | Fábio Pereira, psicólogo na Clínica de Psicologia O Teu Lugar
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