Entre barcos de arte xávega, abanos feitos com penas de gaivota e pequenas construções tradicionais, o artesanato de Licínio Oliveira é uma viagem pela memória e pelas tradições da região. Há 23 anos a marcar presença na Expofacic, o artesão continua a criar peças que juntam criatividade, reutilização de materiais e homenagem às raízes locais.
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No stand, o trabalho é feito à vista de todos. Neste momento, Licínio finaliza um barco inspirado na arte xávega, uma peça que exige várias horas de dedicação e diferentes fases de construção.
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“O processo começa aqui, com restos de contraplacado marítimo”, explica o artesão, referindo que a madeira é moldada com água quente e calor para ganhar a forma pretendida. Depois seguem-se outras etapas, como a colocação das cavernas — pequenas estruturas interiores que dão resistência ao barco — até chegar à fase final de pintura e acabamento.
A madeira utilizada é sobretudo plátano ou faia, materiais escolhidos pela resistência e pela facilidade de moldagem. Todo o processo é feito manualmente, num trabalho que pode levar cerca de 15 dias até a peça estar concluída.
Além dos barcos, Licínio Oliveira dá nova vida a uma tradição antiga: os abanos feitos com penas de gaivota. A ideia surgiu como homenagem a Tia Albino, um antigo habitante da Caniceira, que o artesão quis manter na memória através destas peças.
“Eu sempre gostei de trabalhar com material reciclado. Coisas que estão para ir para o lixo e nós aproveitamos”, explica.
As penas são recolhidas e trabalhadas manualmente, sendo depois encaixadas em pequenos paus para formar um verdadeiro “ar condicionado natural”. A peça, que era utilizada pelos pescadores quando não podiam ir ao mar, servia para avivar o carvão e criar vento.
Cada abanico demora cerca de duas horas a ser produzido e é totalmente feito com materiais reaproveitados, desde restos de madeira de carpintarias até elementos encontrados junto ao mar.
Entre os trabalhos apresentados na Expofacic está o primeiro barco criado por Licínio, uma peça que nasceu depois de um desafio lançado por Jorge Catarino, que o incentivou a representar a tradição marítima do concelho.
O artesão demorou cerca de um ano e meio a idealizar o modelo, inspirado nos barcos existentes na Praia de Mira. A peça foi pintada com as cores do município, como forma de homenagem a quem o motivou a avançar com este projeto.
Ao longo dos anos, os trabalhos de Licínio conquistaram visitantes nacionais e estrangeiros. Muitos emigrantes procuram estas peças para levar consigo um pedaço das suas origens. Um dos barcos chegou mesmo a ser levado para o Canadá.
Um barco de arte xávega pode custar cerca de 60 euros, um valor que, segundo o artesão, representa sobretudo o gosto pelo trabalho e não o tempo investido na criação.
A criatividade de Licínio não se limita aos barcos. O artesão recria também antigos palheiros da Praia da Tocha e casas de vinho tradicionais, algumas adaptadas com soluções originais.
Uma das novidades passa por uma pequena casa que esconde uma surpresa: no interior existe uma estrutura preparada para guardar vinho, permitindo retirar a bebida através de um sistema criado pelo próprio artesão.
“Para os emigrantes é uma peça que tem muita saída”, conta Licínio, explicando que estas criações representam memórias e tradições que muitos procuram preservar.
As suas peças são construídas com madeira reciclada, pedra e outros materiais reaproveitados, mantendo sempre a ligação à história local.
Com uma vida dedicada ao artesanato, Licínio Oliveira continua a transformar materiais simples em peças carregadas de significado. Na Expofacic, o convite fica feito: visitar o seu stand e descobrir objetos onde cada detalhe conta uma história.
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