Num país onde o futebol é quase religião e o café é sacramento, há histórias que merecem ser contadas com tempo, brio… e uma pitada de humor.
Foi isso que aconteceu, esta sexta-feira, 20 de fevereiro, em Montemor-o-Velho, com a visita de Cândido Costa para a gravação do programa Cândido On Tour, do Canal 11.
Entre muralhas históricas e campos verdes, o dia foi mais do que uma gravação televisiva. Foi um encontro de gerações, uma roda humana feita de pais, mães, avós e miúdos de chuteiras calçadas — dessas que ainda trazem terra agarrada, como deve ser.
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No centro de tudo, o Atlético Clube Montemorense, com os seus 230 atletas (cerca de 210 na formação) e uma energia que não cabe num resumo de 30 minutos. Como o próprio Cândido confessou, contar a história de uma associação com 90 anos “é quase um atrevimento”. Mas é um atrevimento bonito.
Cândido Costa não foge às palavras nem às gargalhadas. Assume-se como secundário no seu próprio programa — e isso, convenhamos, é uma lufada de ar fresco num mundo cheio de protagonistas a mais.
“Eu quero que a pessoa se divirta. A partir dos 40 anos, nós adoramos rir de nós próprios.”
E aqui está uma filosofia de vida que dava para estampar numa t-shirt (provavelmente fluorescente). Entre uma parvoíce estratégica e um momento de emoção genuína, o objetivo é simples: provocar um “carrossel de emoções”. Se o espetador se rir e, no minuto seguinte, limpar discretamente uma lágrima — missão cumprida.
Num tempo em que o futebol se mede em milhões e contratos publicitários, há clubes que se medem em abraços. E o Montemorense é um deles.
O presidente do clube sublinha a importância desta “base da pirâmide”. Porque antes das seleções campeãs, há miúdos que trocam a consola pelo treino. Antes dos estádios cheios, há campos onde o presidente da junta pode acumular funções — e às vezes até jogar.
É este “futebol puro” que o programa quer mostrar. Não interessa se a equipa está em primeiro ou em último. Interessa a história do guarda-redes que trabalha numa bomba de gasolina, do capitão que reinventou a vida entre morangos, do dirigente cujo avô fundou o clube.
Interessa a vida real.
Num momento mais introspectivo, o antigo internacional português deixa cair a personagem e fala da gratidão, das quedas e dos recomeços. Já teve os carros de sonho, já perdeu, já recomeçou. E talvez por isso abrace mais e julgue menos.
“As pessoas ainda são a melhor coisa do mundo, apesar de tudo.”
É uma frase simples, mas dita num campo de futebol rodeado de miúdos e famílias, ganha outro peso. Sobretudo numa região que enfrentou tempestades e cheias recentes. A visita é “um grãozinho de areia”, diz ele. Mas às vezes é mesmo isso que faz diferença: um grão de areia que lembra alguém que vale a pena ser daqui.
Porque nenhum dia está completo sem gastronomia, houve espaço para provar especialidades locais (desta vez, as carnes ganharam ao arroz doce).
No final, entre assinaturas, gritos para a câmara e aquele clássico “ao 3!”, ficou a sensação de que o verdadeiro luxo não está nos camarotes VIP. Está na capacidade de uma comunidade se juntar à volta de um campo e sentir que pertence.