Saúde
3 mortos num cruzeiro devido a surto de hantavírus. Devemos preocupar-nos?
Imagem: depositphotos.com
Três pessoas morreram após um possível surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro que fazia a rota entre a Argentina e Cabo Verde. Até ao momento, apenas um caso da infeção foi confirmado, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), que sublinha, no entanto, que o risco para a população em geral continua a ser considerado baixo.
PUBLICIDADE
Apesar disso, o episódio levantou preocupações sobre a eventual transmissão do vírus entre pessoas a bordo, algo pouco habitual neste tipo de agente patogénico. O hantavírus é normalmente transmitido através do contacto com roedores, e não de pessoa para pessoa, o que torna este caso particularmente relevante para investigação.
PUBLICIDADE
A especialista Virginie Sauvage, responsável pelo Centro Nacional de Referência para Hantavírus em França, afirmou à agência AFP que a identificação da estirpe envolvida será determinante para perceber o que aconteceu no navio e esclarecer a origem do surto.
Os hantavírus estão presentes em várias regiões do planeta e podem causar infeções ao longo de todo o ano. Países como a China, Rússia e Coreia do Sul registam vários milhares de casos anuais. Já em regiões como as Américas, Finlândia e França, são reportadas algumas centenas de infeções por ano, como consta na Science Alert.
Estas infeções estão associadas apenas a determinadas estirpes presentes em roedores, como ratos, camundongos e pequenos mamíferos como os arganazes. São estes animais que funcionam como reservatório natural do vírus.
Os hantavírus dividem-se em dois grandes grupos: os do Velho Mundo (Europa, Ásia e África) e os do Novo Mundo (Américas). No caso dos vírus do Velho Mundo, a taxa de mortalidade pode atingir cerca de 14%, embora em países com melhores cuidados de saúde os casos fatais sejam raros e afetem sobretudo pessoas com outras doenças associadas.
A infeção pode variar muito em gravidade. Alguns casos são ligeiros ou até assintomáticos, manifestando-se apenas com sintomas como dores no corpo, desconforto gastrointestinal ou tosse leve. No entanto, em situações mais graves, pode ocorrer compromisso da função renal, podendo evoluir para insuficiência renal aguda — ainda que frequentemente reversível.
Já os hantavírus do Novo Mundo podem ser mais perigosos, com taxas de mortalidade que podem ultrapassar os 40%. Nestes casos, a doença pode evoluir rapidamente para complicações respiratórias graves e, por vezes, problemas cardíacos.
Não existe um tratamento específico para o hantavírus. Por isso, a abordagem clínica centra-se no controlo dos sintomas e no suporte médico. Quanto mais cedo for iniciado o tratamento, melhor tende a ser o prognóstico.
Em casos graves, pode ser necessária internamento em cuidados intensivos com recurso a oxigenoterapia, sobretudo quando há envolvimento pulmonar. Profissões como a agricultura e a silvicultura estão entre as mais expostas ao risco de infeção.
Tal como noutras doenças infecciosas, os grupos mais vulneráveis incluem pessoas idosas, indivíduos imunodeprimidos e doentes com patologias pré-existentes.
Ainda não está esclarecido se o surto a bordo do navio envolve a estirpe conhecida como vírus dos Andes, uma das poucas associadas a possíveis casos de transmissão entre humanos. Mesmo nesses casos, a transmissão exige contacto próximo e prolongado, como ocorre dentro do mesmo agregado familiar.
Regra geral, a infeção ocorre através da inalação de partículas contaminadas provenientes da urina, fezes ou saliva de roedores, ou ainda por contacto direto com estes materiais.
No contexto de um navio de cruzeiro, os investigadores consideram duas hipóteses: transmissão entre passageiros ou infeções independentes adquiridas antes do embarque.
A análise genética do vírus em pessoas infetadas permitirá identificar qual a estirpe envolvida no surto. Uma das hipóteses iniciais aponta para o vírus dos Andes, devido à rota do navio, que partiu de Ushuaia, no sul da Argentina, onde este vírus circula.
No entanto, se a estirpe identificada for diferente — como o vírus Sin Nombre, presente apenas na América do Norte — isso poderá excluir a origem sul-americana da infeção.
Especialistas sublinham que, se for confirmada transmissão entre humanos de um hantavírus do Novo Mundo a bordo de um navio, isso representaria um fenómeno sem precedentes conhecidos.
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE